Marcelismo, dia terceiro

No jantar de despedida da Faculdade de Direito, contaram-me, Marcelo discursou lembrando a "senhora do PBX, que era quem nos punha a par dos mexericos; quando se reformou deixou no lugar dela o professor Y". O professor Y, por acaso vivo e até presente no jantar, ficou naturalmente para morrer. Vermelho dos pés à cabeça, perguntava: "Eu? Mas porquê?" Quem conta sorri e abana a cabeça: "Que necessidade tinha ele, Marcelo, de fazer aquilo? Bem tenta portar-se bem, mas não resiste. Não consegue estar sossegado."

Sim: não há quem (exceto o visado, claro) não sorria com este episódio que, como as famosas histórias vichyssoise e lelé da cuca, tão bem define o Marcelo inventivo e trocista, imprevisível e rebelde, descontraído e inconveniente que vai a pé tomar posse criando um momento mediático de "simplicidade" e proximidade com o povo à la Papa Francisco, mas igualmente perverso - o gesto vinca também, com eficácia mortal, a distância face a um Cavaco crispado, cerimonial, obcecado com a segurança, cujo aparente elogio no discurso de posse é um prodígio de veneno -, maldoso, não confiável e irresponsável. Para fazer uma piada, o Presidente eleito não hesitou em envergonhar um colega à frente de toda a escola, sem atender à desproporção de poder e muito menos à evidência de que, conhecida a sua própria vocação para a intriga e o diz-que-diz, o herdeiro óbvio da senhora do PBX era mesmo ele.

Este lado temerário, irresponsável e tão pouco cristão de Marcelo, há décadas a fazer as delícias do jornalismo dito "político" (o qual, não esqueçamos, integrou nos primórdios do Expresso) e patente no descaramento com que renega declarações e ações anteriores, deveria deixar toda a gente com o mínimo de informação com um ou mesmo os dois pés atrás. Em vez disso, o que vemos são declarações de amor, baba e comoção, e o verberar autoritário dos partidos que "ousaram", recusando palmas na posse e no discurso, não aderir ao unanimismo marcelista. De "falta de educação" a "preconceito ideológico" (é suposto partidos não serem ideológicos?), os apodos abatem-se sobre BE, PCP e Verdes enquanto se louva um discurso que por exemplo o Público reputa de "notável", e de "dizer tudo o que é essencial".

Tudo bem, ver Cavaco pelas costas é um alívio. E Marcelo puxa à festa, literal e metaforicamente. Mas se há algo de notável naquele discurso é ser uma camisola tamanho universal a que não falta sequer o bafio da exaltação da "alma tuga" - ali em "indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica" - e da "grandeza", a terminar numa espécie de grito de Nun'Álvares: "Pelo Portugal de sempre!" Tem piada: na aula, essa sim notável, que deu, em campanha, num liceu de Cascais, Marcelo certificou que o Portugal absolutista, Antigo Regime, supostamente derrotado pelos liberais, veio a ressurgir no salazarismo cem anos depois - e ainda por aí anda, resistindo à democracia. Sabe tanto, professor.

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