Lisboa e os parolos

Cada um de nós tem os seus lugares numa cidade. Os seus bairros, as suas ruas, os seus miradouros, as suas árvores, os seus prédios. O meu bairro foi sempre a Baixa, desde que, miúda, a minha mãe me levava às compras e a lanchar na Brasileira (a da Rua Augusta, não a do Chiado; essa foi minha muito mais tarde). Nos mais de 40 anos que passaram desde esse amor à primeira vista muito mudou nas ruas do meu bairro - onde vivo desde 1996 - nem tudo para melhor.

Não, não vou fazer deste texto uma catilinária contra o turismo. Também sou turista nas cidades dos outros e a beleza de Lisboa não podia ser para sempre um segredo só nosso - aliás, um segredo só de alguns, porque a maioria até há três anos achava a Baixa, por exemplo, um sítio sem interesse nem para passear, quanto mais viver. Como é tão costume, foi preciso estrangeiros mostrarem-nos o que temos de bom face à "invasão" que está a "destruir o nosso património".

Lamento; quem está e esteve a destruir o nosso património somos nós, os portugueses. Primeiro quando o votámos ao abandono e à ruína - aqueles que agora se queixam do preço do imobiliário na zona mais nobre da cidade acaso repararam que até há três ou quatro anos se vendiam aí apartamentos, e até prédios, baratíssimos? Ninguém lhes pegava: não tinham elevador, não tinham garagem, eram "velhos". Sim: a maioria dos portugueses são saloios. Deliram com chão flutuante, recusam--se a subir sequer dois lanços de escadas e acham que o carro é um prolongamento de si. Não concebem sequer que é possível viver sem ele - como fazem milhões de pessoas nas capitais do mundo ocidental -, mesmo que essa incapacidade implique viver a quilómetros do trabalho e passar horas no trânsito. Quantos amigos e conhecidos me perguntaram ao longo dos últimos 20 anos: "Que horror, como é que consegues viver ali?"

Isto dito, vamos ao segundo ponto - a segunda razão pela qual somos nós que estamos a dar cabo do património. E que também tem tudo a ver com sermos saloios. E gananciosos. Mas sobretudo saloios - querendo dizer tacanhos, ignaros, não sofisticados, parolos. Claro que as coisas mudam. As lojas fecham. Os prédios têm de ser reabilitados, adaptados a novos usos. Tudo isto é assim, por mais que custe - e custa muito às vezes. Mas esse tudo não significa destruir, não significa desvirtuar, não significa o carnaval de horrores em que a Baixa está a ser transformada. Em cada dia que circulo pelo meu bairro vejo coisas inacreditáveis. Prédios de miolo completamente deitado abaixo numa zona classificada onde a classificação inclui o tipo de construção - pombalino não é só um tipo de fachada, sabiam? Lojas que, na maior impunidade, destroem as frontarias de pedra com anúncios e letreiros, inventam datas de abertura e põem decorações de plástico pintadas de dourado a "imitar antigo". E - descobri agora - um dos meus edifícios favoritos, o magnífico e romântico palácio dos Condes de Coculim, no Campo das Cebolas, cuja origem remontará ao século XVI (não há muitas casas, e ainda para mais palácios, no centro de Lisboa com esta idade) e cuja ruína lamento há décadas, acrescentado em altura de forma completamente atamancada, digna dos cataclismos algarvios dos anos 1970 e 1980.

Como é possível destruir assim a frente de rio na zona mais antiga da cidade? Já nem falo da cupidez dos promotores, que quiseram "rentabilizar" o investimento e fazer ali um hotel como se fosse, sei lá, na Praça de Espanha; nem do apuro estético e bom senso dos arquitetos. Falo daqueles que têm o dever legal de preservar a memória e integridade da cidade, os decisores públicos. Como raio justificam os responsáveis da Câmara e da Direção-Geral do Património Cultural o terem aprovado este crime? Enloucaram de vez ou agora assinam de cruz tudo o que diga "hotel" e "cinco estrelas"?

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