Guerra incivil

Nem nos meus piores pesadelos poderia acreditar na fragilidade que as nossas instituições têm revelado." É de ontem, esta sms de um académico brasileiro. Desespero, impotência, descrença, terror: mais do que o impressionante ódio político e social patenteado nas ruas, é o espetáculo vertiginoso da degradação das instituições fundamentais da República brasileira, media incluídos, que nos deixa, como ao seu autor, sem ponto de referência ou esperança de redenção.

Uma presidente que põe no governo um correligionário arguido por corrupção e em risco de ser preso preventivamente, com o intuito óbvio de alterar o foro judicial competente e amarrando-lhe, nesta decisão, o seu destino, o do executivo e do partido. O juiz do processo que, em resposta, liberta para os media escutas que incluem a PR - nada adiantando em relação ao que já se sabia - numa decisão sem precedentes e já reputada de ilegal pela Ordem dos Advogados. Uma tomada de posse transformada em comício, com aclamação e palavras de ordem da plateia e Dilma a erguer no ar, qual general vitorioso, o braço do acossado Lula, elogiando-lhe "a grandeza dos estadistas e a humildade dos verdadeiros líderes". Nomeação suspensa pouco depois, na sequência de providências cautelares, por um outro magistrado, este federal, que escreve: "Juiz não é cego nem surdo para o que está acontecendo", magistrado esse que, a crer no noticiado, tinha no seu Facebook posts a apelar à destituição de Dilma (não os ter apagado antes da decisão, quanto mais pedir escusa, diz bem do sentimento de impunidade). A nomeação pelo Senado de uma comissão para analisar o processo de impeachment da chefe de Estado. O recurso interposto pelo governo, para o Supremo, da suspensão da nomeação de Lula. A notícia, adiantada ao princípio da tarde, de que o Supremo anulara a suspensão da nomeação, à noite ainda não confirmada. E o rumor de que Lula poderá ser preso a qualquer momento. Isto tudo à mistura com editoriais inflamados e notícias tendenciosas e o temor - fundado na história do país - de uma intervenção militar.

Não, não pode acabar bem. Já não tem como. Resta esperar que não seja da forma pior possível. Mas, na angústia de quem assiste e torce pelo Brasil, podemos, com a vantagem da distância, aprender alguma coisa. É óbvio que Dilma, por mais que se queira contextualizar o gesto, fez hara-kiri ao tentar salvar Lula (e ele ao aceitar), e que isto é um golpe brutal na esquerda, brasileira e mundial. Mas Lula pode continuar a ser investigado, seja qual for a instância. E Dilma pode ser destituída em eleições ou por impeachment: democraticamente. Os magistrados não. E daqui os vemos, sem sequer o disfarce de um Correio da Manhã, usar o seu imenso e insindicado poder para fazer política, naquilo que é o mais assustador e criminoso ato de corrupção - o que destrói a última instância de apelo de qualquer sociedade democrática. É algo que deve gelar-nos o sangue. A não ser que já achemos normal.

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