Uma história mal contada (1/2)

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As escolhas comportamentais de cada um são, acima de tudo, sua responsabilidade moral. Influências ou pressões de terceiros podem servir de atenuante, no caso de maus resultados, mas não desculpam nem isentam daquela responsabilidade.

Coisa diferente, mas igualmente importante, é a co-adjuvante responsabilidade moral desses terceiros, porventura até maior nalguns casos, pela influência determinante que possam ter nessas escolhas e no seu resultado. Se assim não fora, o combate à droga, por exemplo, far-se-ia exclusivamente pela repressão dos consumidores. Como se sabe, grande parte da acção repressiva incide, e bem, sobre os traficantes.

No entanto, na recente crise financeira, e em particular com os excessos de endividamento que lhe estiveram associados, toda a ênfase tem sido posta nos devedores, omitindo a responsabilidade coadjuvante dos credores e dos intermediários. Resultou assim uma enviesada formatação do problema e, consequentemente, das soluções consideradas. O equivalente, no caso da droga, a perseguir apenas os consumidores.

Desde logo e por causa desse enviesamento de formatação, identificou-se erradamente o endividamento como causa, invertendo sequencialmente a cadeia de eventos. Se os devedores tivessem sido a causa primeira do desregramento financeiro - se fossem eles a desencadear o boom de crédito -, teríamos tido aquilo a que os economistas chamam de um choque positivo da procura, e o brutal aumento da quantidade de crédito teria sido acompanhado por uma subida das taxas de juro. Ora, o que aconteceu foi precisamente o contrário: o aumento de quantidade foi acompanhado de um grande abaixamento de preços (taxas de juro). Pelo que, como ensina a ciência económica, tal choque só pode ter sido um choque positivo de oferta (de crédito). Esta é a questão decisiva na identificação da crise, e que tem sido sistematicamente descurada.

Qual foi, então, a origem desse choque, que acabaria por desencadear a maior crise financeira dos últimos 80 anos? Foi o enorme salto da taxa de poupança mundial, entre o virar do século e 2007, devido sobretudo, mas não só, à China. Poupança que, incapaz de ser absorvida internamente pelos países que a geraram, foi exportada na forma de excedentes das suas contas externas, inundando os mercados financeiros de liquidez.

São estes dois fenómenos - aumento da taxa de poupança e dos excedentes externos -, que se acompanham, como pode ver-se no gráfico, que geraram a enorme abundância de recursos financeiros transfronteiriços, que viriam a desestabilizar a economia mundial. Para que o excesso de poupança nestes países não se traduzisse numa perturbadora quebra da procura mundial e tornasse incapaz a absorção da produção potencial, coarctando o crescimento económico mundial, foi necessário encontrar tomadores para esses fundos dispostos a consumir a poupança exportada, transformando-a em despesa. Ou seja, foi necessário que outros países estivessem dispostos a gastar mais do que produziam, endividar-se e a registar os défices externos que "compensassem" tais excedentes.

Desta forma, o excesso financeiro originado nos primeiros, além do abaixamento das taxas de juro, deu lugar a um volumoso negócio de intermediação para aliciar potenciais devedores dispostos a absorver esse excesso. E assim se desencadeou uma orgia despesista noutros países, principalmente naqueles cujo nível de vida se encontra abaixo da média e que viram no crédito, barato e abundante, a oportunidade de uma rápida e fácil convergência: famílias anteciparam compras; empresas e governos envolveram-se em investimentos de baixo ou nenhum retorno; e um considerável montante de dívidas insustentáveis foi-se acumulando, sob a complacência de reguladores e supervisores.

Como a dívida tem limites e não pode expandir-se indefinidamente, a dado ponto acaba por ser percebida como insustentável, desencadeando-se uma brusca paragem dos fluxos de crédito, que deixa os devedores de calças na mão, se me perdoam a liberdade. E foi assim que os devedores ficaram isolados na mal formatada história da crise, não obstante não terem sido os seus iniciadores. Do mesmo modo que tem sido esta enviesada formatação, que transposta em narrativa moral, tão maniqueísta quanto errada, tem impedido a macroeconomicamente adequada, e moralmente justa, solução do legado financeiro desta crise.

Insisto no ponto inicial: a responsabilidade dos sobreendividamentos e dos desperdícios associados é, em primeiro lugar e acima de tudo, dos que se endividaram de forma irresponsável. Mas há muitas responsabilidades coadjuvantes - nalguns casos mais graves do ponto de vista macroeconómico - que têm sido obstinadamente omitidas da narrativa que tem enformado as acções políticas. E que têm sobrecarregado apenas um dos lados com o peso do ajustamento de uma crise que, afinal de contas, foi fomentada pelos excessos do outro lado e se tornou um factor de divergência económica.

O tema será concluído no próximo artigo, em que abordarei o papel dos bancos e a contrafactualidade da solução adoptada.

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