Sete notas finais para 24 horas intensas

1 Porque é que o Papa Francisco continua a surpreender? Por afirmações e gestos como os de sexta à noite, em Fátima, sublinhando os valores da religiosidade popular em torno da figura de Maria, mas não se inibindo de condenar vigorosamente outros aspectos dessa religiosidade. Essa intervenção foi o texto mais marcante desta sua peregrinação, ainda mais tendo em conta o lugar onde foi feita.

E o que disse o Papa nesta jornada intensa? Ao falar da devoção a Maria, marca da identidade católica, Francisco não deixou de criticar o que, por vezes, se confunde com superstição, crendice ou troca de favores. E não foram meigas as críticas: "Peregrinos com Maria... Qual Maria? Uma "mestra de vida espiritual", a primeira que seguiu Cristo pelo caminho estreito da cruz dando-nos o exemplo, (...) a bem-aventurada por ter acreditado sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas" ou a "santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço?"

Quando rezou na Capelinha, dia 12, o Papa mostrara um caminho para uma religiosidade popular renovada, ao recriar a oração tradicional da salve-rainha", dotando-a de uma linguagem contemporânea. À noite, criticaria a perspectiva de Maria "segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar" ou olhada como "melhor do que Cristo, visto como juiz impiedoso".

2 A religiosidade popular que é vivida em Fátima tem, na perspectiva do Papa, uma dimensão de empenhamento social e político em favor da humanidade, em especial dos doentes e pessoas com deficiência, presos e deserdados, pobres e abandonados, como apontou na homilia de ontem. Aliás, estas referências surgiram depois de Francisco evocar uma das afirmações da agora santa Jacinta Marto, em que ela falava das pessoas "a chorar com fome", que "não tinham nada para comer".

3 Para Francisco, o caminho da Igreja é muito claro. E, mais uma vez, o Papa mostra a sua capacidade de, em curtas frases, condensar ideias importantes do seu pontificado, como na última frase da homilia da missa de canonização: "Sejamos, no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor."

4 E ainda, da alocução de sexta à noite: "Deus perdoa sempre e perdoa tudo." No debate que atravessa o interior do catolicismo sobre o acesso à comunhão das pessoas divorciadas que voltaram a casar, esta afirmação não é apenas retórica piedosa.

5 É impressionante a corrente de comunicação que passa entre este Papa e o seu povo. Não só pelo clamor que cresce à passagem de Francisco, pelos gestos de afecto e ternura em que o Papa se desdobra, como também pelo silêncio que, quando ele pede, invade um imenso santuário, com milhares de pessoas. Tinha sido assim já em Roma, na noite da sua eleição, foi assim em Fátima, onde nem sempre se consegue esse silêncio.

6 Se o Papa deixa apelos à mudança de linguagem da Igreja, deve registar-se que, nas suas intervenções, ele não tenha falado em "aparições". Há outras mudanças que o Santuário pode impulsionar. Um cântico que pede "perdão para os que não creem" contrasta com a oração que diz "eu creio, mas aumenta a minha fé"...

7 Ao invés, foi muito importante traduzir as celebrações em língua gestual portuguesa, apostando numa lógica inclusiva que, na Igreja, nem sempre é fácil. Prosseguir neste caminho e abrir espaços de escuta às necessidades de quem busca aconselhamento, ajuda ou apoio pode ser outro caminho. A peregrinação, humana ou religiosa, de tantas mulheres e homens assim o pede.

Escreve no religionline.blogspot.pt

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Dos convidados

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub