Em Portugal, ao contrário da esmagadora maioria dos Estados membros da UE, o discurso antieuropeu existe sobretudo à esquerda, uma esquerda que tira sistematicamente proveito de defeitos (reais) da UE para estribar neles um discurso em torno da "libertação da submissão", "soberania e independência nacional", "dependência externa e perda de soberania" e da "chantagem e hipocrisia das instituições europeias". São argumentos de vulto, mas que não escondem uma certa nostalgia por uma ideia do que Portugal terá sido no passado - um estado-nação imune aos movimentos da história no nosso continente..Ora é esta ideia que é preciso explorar melhor. Partindo do princípio de que todos concordamos que é preciso mudar a UE, não deixa de surpreender a narrativa de autossuficiência nacional e recusa do projeto europeu (sair do euro implica, lendo os tratados, a rutura com a UE)..Surpreende porque a nossa história leva a uma clara conclusão - que é também uma má notícia para os antieuropeus saudosistas de algo que nunca ocorreu: fomos sempre dependentes do mundo exterior..Ainda as nossas fronteiras não estavam definidas e formalizadas pelo Tratado de Alcanizes, já D. Dinis tinha noção da absoluta necessidade de quebrar o isolamento do reino e fazer face à escassez de recursos do território: em 1293, é estabelecida a liberdade de tráfego entre Portugal e Inglaterra e criada a Bolsa de Mercadores voltada para o comércio marítimo. Segue-se a história que bem conhecemos e tantas vezes vangloriámos apesar das tristes consequências que os nossos apetites expansionistas tiveram para povos oprimidos em vários continentes..Em 1974, chegada a independência às ex-colónias e a democracia a Portugal, vários acordos tinham sido assinados com as comunidades europeias para contornar mais uma vez as limitações do nosso território numa altura em que o dogma imperialista cheirava a mofo. Estes gestos mitigados no tempo do Estado Novo passaram a ser desígnio nacional assumido vigorosamente pelos fundadores da nossa democracia: o Portugal europeu é consequência inevitável e quase imediata do fim do Portugal imperial..Se à esquerda recusamos que a prosperidade possa ser construída à custa da exploração de territórios que não nos pertencem, a dedução realista é que a UE é a nossa mais consistente resposta para o futuro. Querer sair dela sem ter alternativa é querer isolar-nos e asfixiar-nos na nossa insuficiência crónica..Cabe-nos a todos melhorar a UE, é claro, e saber contestar as suas perversidades - mas o cosmopolitismo é e sempre foi a nossa única via para o crescimento e a pertinência geopolítica, única arma para combater os ataques ao Estado de direito e a perigosa subida dos nacional-populismos. Desejar a destruição do projeto europeu é, camaradas nacionalistas de esquerda, do domínio do suicídio coletivo..Especialista em Assuntos Europeus e Direitos Humanos do Partido Livre