Há uma ligação direta entre os distintos perfis e linguagens assumidos pelo narrador e o número de narrativas que nos proporciona o acompanhamento deste livro, tão febril como pausado, consoante as abordagens que se lhe queiram fazer. Pela arte mágica do autor, somos transportados para um Portugal que, nestes tempos de redes sociais inquisidoras e de (des)informação ao minuto, nesta época em que tudo pode acabar reduzido a uma etiqueta ou a um adjetivo, já se desfez no nevoeiro. Não se trata aqui de saudosismo, nada disso; mas entra em campo aquilo de que os da minha idade "ouviram falar", dos casamentos por procuração dada a ausência do noivo em incumbências militares a uma saúde que se disponibilizava em função dos rendimentos ou, se quisermos ir mais longe na estratificação, da "casta" em que se integrava o paciente, aqui simbolizada num sanatório em que a fortuna pessoal ou familiar tinha uma palavra, e decisiva, a dizer. Em boa verdade, não há, neste particular, grandes certezas ou sólidas indicações de que a coisa tenha mudado substancialmente e que, aos poucos mas com cadência regressiva, não tenhamos já andado para trás e reorganizado os cuidados de saúde em função de uma hierarquia que nada mostra de justa ou de disponível com os mais necessitados. Mas essa é uma outra história, certamente..António Canteiro, autor que com este livro venceu o Prémio Literário Alves Redol (em 2015), domina com uma vigorosa segurança e com um carinho quase poético as suas personagens, sabendo descobrir passadas diversas para distintas figuras. Neste domínio, corre riscos evidentes, nomeadamente quando entrega - episodicamente mas de forma marcante - a narração a um cão, adotado por uma mulher solitária e que, num momento trágico, é atirado para a "orfandade" afetiva. Para alguns escritores, o desafio maior, nem sempre ultrapassado, emerge da tentativa de dominar os diálogos, um discurso direto que chega a soar falso ou pomposo ou descabido. Aqui, em A Luz Vem das Pedras, um dos trunfos joga-se nos adequados e distintos ritmos de respiração fornecidos pelas figuras centrais das várias passagens da narrativa, que gera substituições que revelam uma soma invejável de talento e trabalho, que garante a quem lê respirações autónomas consoante os momentos, ainda por cima numa sequência em que um truque feliz com a ligação dos capítulos uns aos outros nos permite moldar a nossa presença de leitores a essas mudanças de perspetiva, de vocabulário e até de atitude..Tal como acontece na vida, são as mortes que vão definindo etapas, que vão fechando e abrindo ciclos, que viabilizam a passagem de uma etapa para outra: uma mãe que morre tuberculosa e que obriga uma menina a um crescimento acelerado; um soldado que, tragicamente, já está morto, lá longe em terras de África, quando a noiva-viúva sobe ao altar para oficializar uma ligação que se quis libertadora; uma mulher que viveu o resto dos seus dias em luto e em solidão; até um cão, um dos vários que por aqui passa, que acaba por não escapar a um atropelamento e fuga. A enquadrar cada uma destas figuras, fica traçado um cenário português, nosso, próprio, inconfundível, apresentado com a objetividade possível numa ficção que vai deixando passar os perfumes da realidade. Vale como obra madura e atenta, com um toque particular que acode aos operários do mérito - as passagens entre os tempos nunca são gratuitas. Bem pelo contrário, contribuem para que nunca se abrande verdadeiramente o apelo de uma história, rica e simples, como acabam por ser as maiores de todas..A Luz Vem das Pedras.António Canteiro.Editora Gradiva.192 páginas.PVP: 11,70 euros