O Sr. Trump e a democracia

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A eleição do Sr. Trump não é um bom augúrio para o mundo e eu não teria votado nele. Mas, goste-se ou não, o Sr. Trump foi eleito num processo que decorreu de acordo com as regras previamente aceites por todos e cuja legitimidade nenhuma instituição relevante pôs em causa. Parece-me, por isso, que as tentativas de deslegitimar a sua eleição são contraproducentes e revelam profundo desconhecimento do que é a democracia.

Contrariamente ao que muitos pensam, a democracia não se destina a escolher o melhor governo, porque a qualidade destes, tal como a dos melões, só pode conhecer-se depois de experimentar. Por outro lado, é verdade que a democracia permite eleger gente não qualificada e, por vezes, daí resultam danos sociais consideráveis. Mas, ainda assim, parece-me um risco preferível a delegar numa elite auto-iluminada o escrutínio prévio de quem são, ou não são, candidatos aceitáveis para depois submeter a uma espécie de voto de ratificação.

Para além da "tecnicalidade" de que um tal sistema seria estruturalmente aristocrático - a tal elite constituiria uma classe reconhecidamente superior -, ele já foi praticado na União Soviética, e é actualmente praticado no Irão, e não parece que os resultados sejam recomendáveis. Além disso, a experiência do que se disse sobre Ronald Reagan, por exemplo, mostra que não teria passado em tal escrutínio e, no entanto, ele é hoje reconhecido como um dos melhores presidentes dos EUA.

A democracia não garante escolhas isentas de erro. E, por vezes, as sociedades têm de pagar um preço pela liberdade de fazer escolhas erradas. Mas a democracia garante, e esta é a sua grande virtude, que as escolhas que se revelem más têm uma duração limitada e, atingido esse limite, podemos livrar-nos dos erros sem derramamento de sangue.

O que é fundamental é que as sociedades disponham de poderes repartidos e de instituições fortes que assegurem a eficácia dessa repartição e assim previnam tentações de abuso. Os EUA são uma das democracias políticas mais funcionais e têm demonstrado dispor de eficazes freios e contrapesos.

O que, infelizmente, não se pode dizer de muitas outras sociedades onde muitos populistas também têm chegado pelo voto ao poder, mas que rapidamente eliminam os mecanismos criados para o refrear e acabam por tornar uma anedota a própria democracia que permitiu elegê-los. Mas estes, além de não sofrerem a mesma contestação bem pensante, atraem até a simpatia de muitos dos actuais contestatários.

Se o Sr. Trump se revelar tão mau como tem sido previsto, daqui por quatro anos poderá ser arredado, e talvez isso sirva de recordação preventiva por muito tempo. Até lá, vamos confiar na eficácia das instituições americanas para refrear eventuais ímpetos que o senhor possa ter para ir além do que seja a legítima aplicação de um programa político.

Mas há um erro muito grave que está a ser cometido por quase todos os indignados com a eleição do Sr. Trump. É que estão muito mais preocupados com o resultado do que com as causas que o produziram. E se as causas não forem devidamente tratadas, é muito provável que voltem a produzir - nos EUA e noutros lados - o mesmo resultado. Esse resultado pode até tornar-se ainda mais provável, porquanto o ataque ao resultado da escolha poderá ser visto como um ataque aos que fizeram a escolha, o que só atiçará o seu enquistamento.

Esta eleição provou, entre outras coisas, que existe uma enorme clivagem cultural entre uma elite mediática (que faz media ou para quem a media é feita) e um povo que se sente cada vez mais ignorado, desprezado e até depreciado por essa elite. Como se de dois mundos paralelos se tratasse. Só que não são paralelos, são tangentes um do outro, o voto que elege quem os governa é o ponto de tangência e o peso demográfico dos dois lados conta.

E também chamou a atenção para uma realidade social que existe nos EUA, e que é desconhecida de muitos - muito provavelmente até de grande parte dos americanos -, mas que é muito mais próxima de um país pobre (do Ocidente) do que da potência económica que todos reconhecem naquele país. Se não for dada atenção a essas clivagens e a essas realidades, novos Trumps surgirão.

Por fim, gostaria de notar que a retórica e a prática privada do Sr. Trump podem despertar receios de potenciais ameaças a certas conquistas civilizacionais que o mundo ocidental tem consagrado a nível dos costumes. Mas seria bom que não se perdesse a noção das devidas proporções. Essas ameaças podem tornar-se reais, mas por enquanto são apenas potenciais. E, mesmo que se concretizem, serão largamente menores do que as que já são hoje pesadamente reais, que, não muito longe, desdignificam e oprimem as mulheres, reprimem a homossexualidade e, mais perto, constituem já uma séria ameaça ao modo de vida que nos habituámos a qualificar (apesar de muitos o desdenharem) como civilização ocidental.

Como em qualquer confronto, é bom saber prioritizar os alvos.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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