Iodo, uma problemática atual - o projeto EUthyroid

Nos últimos anos, a problemática do défice de iodo tem vindo a merecer maior protagonismo não só para a comunidade cientifica, como para o público em geral.

O défice de iodo é o principal fator de risco para a doença tiroideia, em adultos e crianças. Se por um lado está bem estabelecido o bócio como resultado de défice de iodo, por outro, não é tão conhecido o papel de regulação das hormonas tiroideias no desenvolvimento de vários órgãos. Neste sentido, é recomendado que mulheres grávidas ou em amamentação assegurem um aporte de iodo adequado para o ideal desenvolvimento da criança. Mesmo défices de iodo ligeiros durante a gravidez podem provocar alterações do desenvolvimento cerebral, afetando a inteligência. Na verdade, a deficiência de iodo é a principal causa mundial de dano cerebral evitável e, durante anos, a Organização Mundial da Saúde tem alertado que os europeus estão cada vez mais afetados pelas consequências deste défice.

Em Portugal, ainda não existem estudos de aporte de iodo para a população geral. Os estudos nacionais existentes (realizados pela Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)) são em grávidas e crianças e demonstraram que 83% das mulheres grávidas têm défice de iodo moderado, 23,7% têm défice grave e que 47,1% das crianças em idade escolar apresentavam níveis de iodo urinário abaixo dos recomendados.

No contexto desta problemática, Portugal está envolvido num projeto de investigação europeu, financiado pela União Europeia, denominado EUthyroid, cujo objetivo último é o de melhorar o aporte de iodo na Europa de forma sustentada e harmoniosa.

EUthyroid é a primeira iniciativa pan-europeia a assumir o desafio de investigar o aporte de iodo na Europa. Este estudo será a base para desenvolver medidas adequadas à harmonização e melhoria do aporte de iodo na população europeia, em cooperação com as autoridades nacionais.

O EUthyroid reúne a experiência de reconhecidos epidemiologistas, endocrinologistas, nutricionistas e economistas da saúde provenientes dos 27 países. Inclui ainda a Rede Global de Iodo (IGN), que está empenhada em eliminar a deficiência de iodo no mundo, com cem agências e coordenadores regionais e nacionais. Ambas as redes, cujos objetivos em muito se sobrepõem, irão cooperar na criação e no desenvolvimento de medidas a ser implementadas pelas autoridades nacionais de saúde.

O projeto destina-se a avaliar a situação atual nos vários países envolvidos, em matéria de ingestão de iodo e das consequências para a saúde da sua deficiência. Será dada particular atenção à gravidez e ao possível impacto do défice de iodo no desenvolvimento intelectual da criança. Estes objetivos serão atingidos através da concretização das seguintes tarefas:

1. Recolha de dados padronizados sobre a ingestão de iodo da população dos países envolvidos.

2. Comparação das medidas nacionais existentes e hábitos alimentares.

3. Harmonização e padronização da informação recolhida.

4. Análise da relação custo-benefício dos programas de prevenção existentes.

5. Desenvolvimento de medidas adequadas com vista a melhorar e universalizar o aporte de iodo.

6. Análise de três estudos mãe-filho de regiões com diferentes aportes de iodo, com vista a confirmar a relação entre défice de iodo e a menor educabilidade da criança

Este projeto tem a duração de três anos e deverá ser finalizado no final deste ano (2017). Informação adicional poderá ser encontrada em www.euthyroid.eu.

Jácome de Castro é Diretor Clínico do Hospital das Forças Armadas e Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e Diabetes

Mafalda Marcelino é Diretora do Serviço de Endocrinologia do Hospital das Forças Armadas

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