Em março de 2015, o então vice-presidente Michel Temer (PMDB) dizia que o impeachment de Dilma Rousseff (PT) era "impensável, sem base jurídica nem política"; um ano depois, estava a formar o governo interino. Enquanto o formava, soltou a promessa de que emagreceria radicalmente o obeso ministério Dilma; na semana passada criou a 27.ª pasta do seu bem nutrido executivo. Na suposta dieta, cortou o Ministério da Cultura; voltou atrás à primeira pressão dos artistas. Numa segunda-feira reconheceu que, para enfrentar a crise económica, seriam inevitáveis novos impostos; numa terça--feira disse que afinal não; e numa quarta-feira voltou a falar em mais tributos..Tendo em conta este histórico, quando há semanas, respondendo a um desafio do novo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), o presidente provisório disse que não tem intenção de se candidatar à presidência em 2018, resta-nos concluir uma coisa: o presidente provisório tem intenção de se candidatar à presidência em 2018..Caso o governo, que ao que tudo indica vai liderar definitivamente a partir desta semana, amenize a crise económica nos próximos dois anos, Temer não se contentará com o papel de presidente-tampão não eleito, a quem o destino guardou a mera tarefa de roer os ossos para deixar o filet mignon da recuperação das contas para outro. Não: por mais que a sua alcunha seja Mordomo, não quererá abrir a porta da mansão da história a um aliado (ou a um rival). É pré--candidato a 2018, sim - "só que não o pode dizer", como registou um colaborador..Para a pretensão do interino há, no entanto, um "porém". E há um "contudo" e há um "todavia" e há um "não obstante"..O "porém" é Aécio Neves, o presidente do PSDB, que ao emprestar o apoio do seu partido ao governo liderado pelo PMDB cuidou de garantir um acordo tácito que prevê que os peemedebistas abdiquem de concorrer em 2018. Aécio, no entanto, sabe que na política brasileira nem um acordo assinado tem muito valor - Temer assinou compromisso de honrar a união com Dilma, na saúde e na doença, até 2018 e à primeira gripe dela pediu o divórcio - quanto mais um tácito. "Apoiamos um projeto para melhorar o país, não um projeto eleitoral", alertou na quinta--feira Aécio, muito mais preocupado nos dias que correm com o aliado Temer do que com a rival Dilma..O "contudo" também é tucano: José Serra, que corre por dentro do governo, na qualidade de ministro interino dos Negócios Estrangeiros, e planeia fazer do Itamaraty (sede do MNE) um atalho para o Planalto em 2018..O "todavia" é Geraldo Alckmin, o terceiro dos "candidatos naturais" do PSDB, que, ao contrário de Serra, corre por fora. Governador do estado de São Paulo, que vale um terço da riqueza do país, mostrou os músculos nas primárias tucanas para a prefeitura da capital estadual, ao impor o seu escolhido, João Dória, aos preferidos de Aécio e de Serra..E há ainda Henrique Meirelles (PSD), o "não obstante" desta história. Aplaudido presidente do Banco Central no eldorado lulista, ocupa no governo Temer a pasta fundamental de ministro das Finanças. Com carreira na área, perfil técnico, economês na ponta da língua, ligações íntimas aos senhores do PIB e até cara de contabilista, Meirelles tem, no entanto, ADN político até ao último cromossoma: é filho de secretário de Estado, sobrinho de governador e neto de prefeito..Consciente do seu potencial, o PSDB já marca território: "O que Meirelles tem produzido é insuficiente, só faz anúncios", disse um tucano. "Tem recuado demais", completou outro. Meirelles regozija-se, em entrevista à revista Veja. "Não são só os empresários e os consumidores que estão otimistas como o meu plano económico, pelos vistos, os políticos também, tanto que já se preocupam com o efeito eleitoral que terá.".Nas condições políticas atuais, com um governo amputado de vice-presidente porque Temer subiu a titular, e nas condições económicas atuais, com as contas públicas como primeira, segunda e terceira prioridades dos próximos dois anos, o titular das finanças funciona, na prática, como um vice-presidente - como Fernando Henrique Cardoso funcionou para Itamar Franco e depois governou por oito anos enquanto de Itamar não se ouviu mais falar..Meirelles está para Temer como FHC estava para Itamar. E, mais ou menos, como Temer estava para Dilma. Temer confia em Meirelles, não obstante, convém ficar atento a eventual golpe do seu vice.