E se só agora estivesse a acabar a Era dos Extremos, o curto século XX que, em 1994, Eric Hobsbawm contava a partir dos canhões de Agosto de 1914 até ao fim da URSS no dia de Natal de 1991? E se, em termos de tempo histórico, o século XX só terminasse agora, em 2017? .Outubro: revolução e reacções.Em 1917, com a revolução russa, estava dada a partida para a competição entre diferentes concepções do mundo, do homem e do Estado para a luta das ideologias cosmocráticas pelo governo de potências que iriam dominar o mundo..Tudo começou na Rússia em guerra, quando os bolcheviques de Lenine tomaram o poder em Petrogrado e Moscovo, venceram a guerra civil e, pelo terror sistemático, eliminaram toda a oposição. Eram determinados e impiedosos, como os jacobinos que admiravam e, como eles, uns utópicos maquiavélicos. A sua vitória e o seu proselitismo, as tentativas de imitação na Alemanha, na Hungria e na Itália, causaram reacções na Europa. A ideia de que através da Internacional Comunista se podiam agitar e sublevar as massas operárias e camponesas de toda a Terra alarmou toda a gente e não tardaram as respostas e as contrapropostas de várias inspirações e quadrantes..A primeira reacção veio da Itália, onde um militante socialista, Benito Mussolini, sintetizou nacionalismo e socialismo - as duas ideias fortes do século XIX - num movimento político activista que passou a enfrentar as esquerdas nas ruas, perante a neutralidade do Estado liberal. O fascismo inspirou--se em ideias que já andavam no ar em França nos finais do século XIX, com Drumont, Barrès e até com Maurras. O fascismo seria a doutrina anticomunista por excelência mas hostilizaria também o liberalismo e a democracia. Por medo dos comunistas, as classes médias e altas italianas apoiariam Mussolini, pensando controlá-lo. Também em resposta à Revolução de Outubro e ao "perigo bolchevique", embora a humilhação de Versalhes tenha sido a verdadeira causa do seu triunfo, chegava o nacional-socialismo de Adolf Hitler, que alcançaria o poder, por via eleitoral, em Janeiro de 1933..Outras modalidades de reacção, autoritárias e conservadoras, na Península Ibérica, na Europa de Leste, nos Balcãs, foram sendo geralmente protagonizadas pelos exércitos. A última levaria à Guerra Civil de Espanha e à vitória de Franco. .A crescente hegemonia de Berlim no continente europeu e o cumprimento dos tratados com a Polónia conduziram à Segunda Guerra Mundial e à aliança dos soviéticos com os liberais anglo--saxónicos na coligação vencedora de 1945..As potências ideológicas - sobretudo comunistas e fascistas - tinham originado linhas de amizade e inimizade transversais aos Estados. O comunismo era por natureza internacionalista, mas o fascismo também acabaria por sê-lo, perante uma ameaça que era supranacional. Mas se o fascismo era transversal a raças e fronteiras, Hitler e o nazismo tinham um genuíno etnocentrismo germânico e só no coração da Guerra Mundial, em estado de necessidade, procuraram na Europa Unida uma cruzada anticapitalista e anticomunista. .Ocidente versus Leste.O problema ideológico dos dois mundos voltou a pôr-se na Guerra Fria com a bipolarização Ocidente-Leste, Mundo Livre-Cortina de Ferro. A ameaça crescera com o domínio da Europa Oriental pelos exércitos soviéticos e com o triunfo de Mao na China em 1949. Na fase seguinte, a descolonização, na lógica dos princípios ideológicos da Carta das Nações Unidas, obrigaria a uma corrida entre Leste e Ocidente pelo favor dos novos Estados. E Washington, em Suez, romperia com Londres e Paris num claro sinal de novos tempos e vontades..A Guerra Fria só não aqueceu para os protagonistas graças à racionalidade imposta pelas armas nucleares. A destruição cruzada refreou tentações e, com altos e baixos, fluxos e refluxos, o duelo durou até que a administração Reagan tomou a iniciativa de explorar as vulnerabilidades do Império Soviético, já detectadas por Emmanuel Todd, Hélène Carrère d"Encausse e Herbert Meyer..Assim, no espaço de 77 anos, se passara o tal "século curto" da Era dos Extremos de Hobsbawm. Mas o livro era de 1994 e daí para cá deu-se um outro capítulo, o final: a tentativa dos vencedores da Guerra Fria de estender a todo o globo o seu modelo político-social - a democracia partidária e capitalista..A globalização democrática.A tentativa, inspirada nos EUA pelos neoconservadores, dirigiu-se contra a débil Rússia pós-soviética de Yeltsin e contra as autocracias pessoais e militares do Médio Oriente, através das Primaveras Árabes. A globalização democrática manteve uma lógica confrontacional que, uma vez vencido a agressão comunista, deixara de fazer sentido. .Nesta nova fase, a Rússia de Putin, nacionalista, conservadora, religiosa, autoritária, é o inimigo principal. Os cruzados da globalização democrática atacam também os regimes conservadores da Polónia e da Hungria e vão passando para a sua lista negra, sob a designação de "populistas", partidos e movimentos políticos identitários..Esta ofensiva tem tido várias raízes ideológicas: umas, de cariz determinista, acreditam que a economia e a tecnologia, na sua invencibilidade, ditam um mundo único, regido pelos mercados e por uma ética consumista, sibarita, multicultural. As nações, as religiões, as tradições, tudo o que identifique o produtor-consumidor com quaisquer outras determinantes ou lealdades são alvos a abater. E, como sempre, esta "irremediável" globalização económico-financeira vem com uma globalização ideológica acoplada: só que desta vez não é a utopia marxista do socialismo igualitário, nem o nacionalismo liberal, nem uma versão laicizada do evangelismo cristão: é a chamada "correcção política", assente numa concepção do homem que, tal como o dinheiro, não tem cor, nem sexo, nem nação e é por isso livre em termos de circulação e de direitos alfandegários. Os mercados, na sua incessante e invisível sabedoria, vão dizendo o que se deve produzir e consumir e uma elite esclarecida vai descobrindo novos nichos e defendendo com reivindicações cada vez mais sofisticadas grupos cada vez mais restritos..A retórica e a prática das instituições internacionais, replicadas por muitas ONG, vão-se encarregando de reproduzir e de executar este programa. A União Europeia foi transformando o mercado comum em confederação política, ganhando tutela sobre os povos através da dívida..O imperialismo democrático ou internacionalismo liberal foi a última tentativa do século das ideologias, começado em 1917, de hegemonizar e homogeneizar o mundo. As versões fascistas e comunistas tinham falhado: agora, no modelo relativamente neutro de economia de mercado global, pretendia introduzir-se uma nova moral para a qual, teoricamente, só deveria ser proibido proibir..Será o povo antidemocrático?.Ora o que aconteceu em 2016 foi que a resistência a este paradigma ideológico cresceu nos povos e agora chegou aos políticos, com o triunfo de causas e de pessoas que se opõem ao pensamento único: a votação favorável ao brexit no Reino Unido e a vitória de Trump nos Estados Unidos marcam política e simbolicamente uma volta já começada no tempo do colapso da União Soviética, com a reunificação alemã (um acto de reunificação da nação que teve alto custo económico) e prosseguida quando a Rússia saiu dos escombros da utopia totalitária para restaurar o Estado nacional. E aqui, é importante e significativo que os protagonistas deste novo paradigma sejam precisamente o Reino Unido e os Estados Unidos, os dois Estados constitucionais mais antigos do Ocidente, dois dos vencedores da Guerra Fria, portadores da globalização e do internacionalismo..Uma a uma, as grandes potências voltam a políticas definidas em função do interesse nacional e do realismo geopolítico, cada qual com o seu modelo político-social e sem pretensões de o impor às outras potências. Curiosamente, aliás, já estão nessa linha quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas: a República Popular da China, a Federação Russa, a República dos Estados Unidos e o Reino Unido. Falta a França, ainda presidida por Hollande, que por estes dias se dedica a legislar e a aprovar as mais absurdas medidas de correcção política. Mas não será já por muito tempo..Um mundo perigoso?.Será assim tão perigoso este mundo de Estados nacionais guiados pelos seus interesses e razões como proclamam os alarmistas do internacionalismo liberal? Há riscos e perigos, com certeza, e alguns globais. Contra eles - o jihadismo terrorista, a proliferação de armas nucleares e químicas e de várias e sofisticadas formas de crime organizado - haverá que manter e melhorar a colaboração interestadual. .No caso da Colômbia, agora tão bem evocado na série Narcos, ficou claro que só com o apoio de uma grande potência - os Estados Unidos - pode um Estado médio vencer organizações criminosas como os cartéis de droga. Também se tem visto que não é necessária a proliferação e o controlo de organizações multilaterais para conseguir uma colaboração país a país quando os problemas e os riscos são comuns. .Atrevo-me a concluir que o século XX não foi assim tão curto e que a era das ideologias - e, queira Deus, também a dos extremos - só agora vá terminar, neste ano de 2017, centenário da Revolução de Outubro.