Os sonsos e os vilões

A política e a atitude deste governo, relativamente ao sistema financeiro, aos "casos" aflitivos, ao BES, ao Novo Banco, à Caixa, ao Banif e ao Montepio, são parecidas, talvez mesmo iguais, à do anterior governo: não é nada com eles! É com o Banco de Portugal, com o Banco Central Europeu, com a Comissão Europeia, com quem quiserem e sobretudo com o anterior governo, menos com eles!

Já soubemos, por testemunho directo e presencial, que o assunto nunca foi discutido seriamente no Conselho de Ministros anterior, tudo levando a crer que o mesmo esteja a acontecer no actual. É simplesmente inimaginável! O mais sério problema não é discutido no governo, nem é agendado para Conselho de Ministros! A situação financeira, o futuro do Banco de Portugal, o endividamento, o destino a dar aos principais bancos e a nova configuração da banca portuguesa... Tudo isso é matéria que escapa ao governo. São assuntos sobre os quais os últimos governos não têm ou, antes, não querem ter posição. São temas a propósito dos quais os governos não querem ter responsabilidades. Mesmo que se diga que Portugal já não é um país soberano, este não é o comportamento que se deva esperar do governo. Mesmo que se saiba que nada se fará sem a decisão do BCE e da Comissão Europeia, esta não é uma conduta responsável do governo.

Nunca se viu um tão grande número de especialistas em finanças! Toda a gente sabe o que se passou no BES, no Novo Banco, no Montepio, no BPN, no BCP ou na CGD! Toda a gente tem uma opinião sobre o assunto. Mas há um problema: as opiniões vêm ligadas à simpatia. Os socialistas apoiam as medidas tomadas pelos socialistas e subscrevem as críticas feitas aos sociais-democratas. Os sociais-democratas, exactamente ao contrário. Os amigos de Sócrates criticam antecessores e sucessores, designadamente Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. Os amigos de Passos Coelho denunciam sucessores e antecessores, nomeadamente Sócrates, Teixeira dos Santos, Costa e Centeno. Os amigos de Costa culpam os antecessores, mas distinguem entre Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, muito maus, e Sócrates, que silenciam. Simpatizantes do CDS desculpam amigos e responsabilizam adversários. Comunistas e bloquistas culpam acidamente a direita e desculpam envergonhadamente a esquerda. Todos, esquerdas e direitas, culpam o Banco de Portugal e Carlos Costa, a União, Juncker e Dijsselbloem. E não se metem com Draghi, porque é ele que nos compra a dívida. Os maus estão sempre lá fora e na oposição.

Depois há ainda outros fiéis, amigos e interessados. Amigos da Caixa, amigos do BCP, adeptos do BES, simpatizantes do Banco de Portugal, admiradores de um presidente da Caixa e seguidores do outro, de todos temos essencialmente a mesma versão, só mudando os protagonistas: os amigos têm razão, os outros não. E de muitos economistas, jornalistas, comentadores, professores e consultores de quem se esperava uma análise isenta e uma interpretação financeira e política, temos profissões de fé. As coisas não são muito diferentes das do futebol: o meu clube tem razão, os outros não. Ponto final. A análise, o comentário, o exame, a polémica e a interpretação vêm depois de garantida a culpa do outro e a bondade do meu!

As responsabilidades pela lamentável situação em que se encontra o sistema financeiro português devem ser imputadas a muita gente dos últimos cinco governos, incluindo dirigentes da administração pública e das instituições, gestores, banqueiros, funcionários públicos, magistrados, polícias e outros. Mas há certamente uns muito mais do que outros. Era tão importante atribuir responsabilidades! Era tão importante, para a democracia e as liberdades, saber quem é responsável pelo desastre inédito das instituições e das finanças portuguesas! Era tão importante castigar exemplarmente os verdadeiros culpados! Sejam eles primeiro-ministro, ministro, banqueiro ou gestor!

Mas será para sempre impossível. É o que parece. A maneira como falam as pessoas e os especialistas, como comentam os profissionais e os amadores, como se defendem e como atacam os políticos governantes e deputados, tudo isso leva a uma conclusão: nunca saberemos com o menor rigor! Nada entenderemos. E tudo pagaremos!

As minhas fotografias

Fátima. Há cem anos, há tanto tempo! Este é o ano do centenário. Dos centenários, melhor dizendo. Na Rússia, há cem anos, entre Fevereiro e Outubro, a revolução democrática e depois bolchevista dá origem ao Estado soviético e ao regime comunista. Dissolvida em 1991, a URSS não chegará a comemorar o seu centenário. Na Europa, há cem anos, a Grande Guerra ocupa tudo e todos. Entre Fevereiro e Abril de 1917, os primeiros contingentes de tropas portuguesas chegam à Flandres. Com o pretexto imediato do afundamento, pelos alemães, do navio Lusitânia, os Estados Unidos, em Abril, declaram guerra à Alemanha e, em Maio, desembarcam em França e entram na guerra, iniciando assim o século americano de hegemonia política e militar. Em Ourém, há cem anos, desde Maio e até Outubro, as aparições de Fátima dão início a um século de catolicismo português. Esta Cruz Alta, colocada em 1951, foi retirada há doze anos, para dar lugar ao novo santuário e a uma nova cruz. fotografia de antónio barreto

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