Cem anos. Tantos anos!

Com a chegada dos dias santos de Setembro a Novembro, começam as comemorações. Na Praça Vermelha, em Moscovo, com pouco lustro e ainda menos entusiasmo. Na Praça Kim Il-sung, em Pyonyang, com aprumo e disciplina. Na Praça da Revolução, em Habana, com rum e saudades de Fidel. Na Quinta da Atalaia, na Festa do Avante!, com música e bifanas. E pouco mais. A Grande Revolução Russa está à beira de desaparecer das agendas do presente. O comunismo, seu principal herdeiro, deixou rastos de dor, nunca se saberá se mais ou menos do que o nazismo.

O século XX ficará talvez na história como o mais sangrento. Duas guerras mundiais, uma dúzia de guerras coloniais, dezenas de guerras regionais, ainda mais guerras civis e algumas centenas de milhões de mortos por violência política. A técnica de extermínio foi elevada a cumes nunca vistos, no Gulag soviético, nos campos nazis e na revolução cultural chinesa, sem falar nas execuções sistemáticas do Ruanda e do Camboja, entre muitas outras. Foi neste século que se generalizou a tortura e se inaugurou a guerra biológica e química, assim como a explosão de bombas atómicas. Foi este o século em que os alvos deixaram de ser essencialmente militares e passaram a ser civis. De Londres a Estalinegrado e Dresden, de Phnom Penh a Aleppo e a Mossul, a geografia do horror de massas deixa poucas esperanças e nenhumas dúvidas.

Também é verdade que foi neste século que uma centena e meia de países adquiriram a sua independência, que o capitalismo dominante se comprometeu com a democracia, que os direitos do homem fizeram caminho, que o racismo como sistema recuou e que o desenvolvimento científico, económico e social mais progrediu. Sim. Neste balanço do século, o melhor vai para a ciência, a democracia e talvez a cultura. Mas o horror foi muito e nunca visto antes.

O pior, pela dimensão, pela violência, pelo número de vítimas e pela duração, vai para o comunismo. Ou é partilhado com o nazismo. É seguramente um dos mistérios do século, ou antes, um dos problemas difíceis de resolver: por que razão ainda há comemorações? Por que motivos ainda há quem se intitule orgulhosamente comunista? O que faz que o antifascista seja um herói e o anticomunista um selvagem? Como é possível que, ainda hoje, universidades, escritores, políticos, intelectuais, sindicalistas e trabalhadores aceitem que o comunismo tenha sido um avanço na história da humanidade?

A guerra civil, a execução de aristocratas e "russos brancos", o assassínio de rivais, a eliminação de democratas, os massacres de milhões de camponeses, de judeus, de cossacos e de tártaros, o Gulag contra toda a gente, a perseguição de "cosmopolitas", intelectuais e liberais, a censura, os trabalhos forçados, a fome programada e a destruição espiritual e física de todos os que não se submeteram são os pergaminhos de um dos mais tenebrosos sistemas políticos que a história conheceu. Mas os idiotas úteis continuam a dizer que o comunismo tinha desculpa, porque era em nome do povo! Que não foi assim tão mau, porque era contra o capitalismo. Que cumpriu a sua função, porque desenvolveu a Rússia!

As sociedades democráticas conseguiram compor com o capitalismo, que, com o tempo, se foi separando da ditadura - o que nunca aconteceu com o comunismo. Este e a ditadura associaram-se sempre, sem excepção. O convívio do comunismo com a democracia nunca aconteceu. Nem sequer na China, onde o comunismo conseguiu compor com o capitalismo, mas não com a democracia.

O fim do comunismo impressiona pela sua fragilidade (François Furet), pela rapidez com que desapareceu, pela maneira como ninguém veio em seu socorro. O comunismo dependeu do regime soviético. Acabado este, acabou aquele. O que sobra hoje é um pequeno conjunto de caricaturas: a Coreia do Norte, Cuba e o PCP...

O que os exércitos não conquistaram, a Rússia, foi obtido pelo capitalismo. O que o nazismo não conseguiu, derrotar o comunismo e a União Soviética, foi alcançado pela liberdade e pela democracia. É esse o aniversário a comemorar. Por muitos anos!

As minhas fotografias - Casamento em São Petersburgo

É, nesta maravi- lhosa cidade, uma intensa actividade de qualquer dia, mas sobretudo de fim-de-semana: casar e fotografar. Nos jardins, nos palácios, diante das catedrais, à beira do rio Neva, junto à fortaleza Pedro e Paulo ou perto do Hermitage: qualquer sítio de prestígio e beleza é bom para fotografar os noivos. O gesto é tão importante que a sessão de pose demora umas largas horas e exige mudança de roupa e de maquilhagem. Até porque depois se fará um álbum vistoso a distribuir ou vender aos convidados. Por isso, quando se observa uma destas sessões de fotografia, não se vê mais ninguém, nem sequer parentes próximos. O mistério é simples: as fotografias fazem-se uns dias antes. No dia da boda, não dava mesmo jeito nenhum fazer esperar os convidados umas horas! Fotografia de António Barreto

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