Os eucaliptos que secam a política

A última coisa que um miúdo com 12, 13 anos quer, durante as férias do verão, é ir cortar mato. Sobretudo quando os termómetros marcam mais de 30 graus, quando toda a gente está na praia e, não menos relevante, quando se detesta essa nobre e importante arte de... cortar mato. Mas três meses de férias escolares dão para fazer muita coisa e os meus pais sempre acharam importante ensinar--me a cuidar da terra. Por isso, num desses períodos de férias de verão, a minha mãe decidiu que eu ia com o meu tio cortar mato para um pinhal de família. Ele levava a sua enxada, eu a minha, e lá fomos nós. Que remédio!

Acreditem que há mais ciência em cortar mato do que aquilo que se imagina. Além da técnica roçadora do meu tio, admirável aos meus olhos, mas apenas na ótica do espectador, ele decidiu ensinar-me a fazer uma paveia. Um punhado de mato cuidadosamente cortado que depois é empilhado como se estivéssemos a moldar uma peça de barro. O objetivo é facilitar a carga para o trator, que virá uns dias depois buscar esse mato. A primeira hora, o meu tio "perdeu-a" a explicar-me como se fazia uma paveia. Ele fez uma. Eu tentei - e "tentar" é a expressão correta - fazer outra. A seguir mandou-me para o pinhal do lado sozinho, convencido de que eu estaria preparado para cumprir, numa manhã, o que ele conseguiria fazer em duas horas.

Há 25 anos, os pinhais tinham, sobretudo, pinheiros e o eucalipto era visto quase como uma praga. Além de ser mais valiosa, a madeira do pinheiro tinha várias utilidades. Isso explicava, em grande medida, o orgulho com que, nas aldeias, se olhava para o crescimento dos pinheiros, como se de uma pessoa se tratasse. Ninguém se importava de esperar que eles crescessem, mesmo que estejamos a falar de décadas, até estarem prontos para o corte. Se os antepassados deixaram pinhais para as gerações futuras, a obrigação era fazer o mesmo. Deixar um pinhal para quem viesse a seguir.

Eu sou o que venho a seguir. Eu, e tantos como eu, que acabámos por seguir trilhos diferentes daquele pinhal onde o meu tio me foi ensinar a fazer uma paveia. A educação passou - e bem - a ser uma prioridade política nacional e isso fez que as novas gerações estudassem até mais tarde. Fez que mais fossem para o ensino superior, saíssem de casa e, na esmagadora maioria dos casos, nunca mais voltassem. As oportunidades de emprego concentraram-se todas nos grandes centros urbanos e as terras ficaram dependentes de uma geração que está a morrer. Quem fica não quer, não pode, não sabe fazer uma paveia. Nem sequer conhece, muitas vezes, os limites dos seus terrenos.

Esta realidade não é nova e é isso que a torna ainda mais dramática. Sempre que chegamos a uma época de incêndios, chegamos à discussão da reforma da floresta. Sempre que chegamos ao outono, deixamos cair essa discussão, até ao verão seguinte. A verdade é que uma reforma, digna desse nome, pode escaldar as mãos de um político e esse é, na essência, o motivo pelo qual ainda não a fizemos.
Depois de Pedrógão Grande, voltámos ao assunto. Afinal, se morreram 64 pessoas e ninguém assume a responsabilidade por isso, a culpa é da floresta. A demagogia que se instalou imediatamente a seguir sobre este assunto é de fazer corar de vergonha qualquer um. "Legisle-se sobre tudo, antes de os deputados irem de férias", ordenou o Presidente da República. E os deputados, bem-mandados, lá pegaram no assunto que estava esquecido numa qualquer comissão das catacumbas do Parlamento e sentaram-se à mesa a conversar. Para grande surpresa nacional, não chegaram a acordo.

O tema queima, de facto. Reféns da grande indústria da celulose, os governos - este e todos os outros - usam todo o jogo de cintura que têm para criar a aparência de que estão a fazer alguma coisa, sem nada fazer. Os partidos encaram cada tópico deste tema como uma oportunidade eleitoral para ganhar votos ou, pelo menos, para não os perder. São autênticos eucaliptos, que secam qualquer possibilidade de se fazer uma verdadeira reforma da floresta.

E é pena. Porque eu, que já não me lembro de como é que se faz uma paveia, sinto que tenho a obrigação, um dia, de voltar a aprender. Enquanto o Estado não só não sabe o que tem como é o primeiro a não cuidar das suas próprias terras. Talvez um dia eu tenha mesmo de reaprender a fazer uma paveia. E, quando esse dia chegar, não vou poder usar o mesmo argumento que usei há 25 anos, quando cheguei perto do meu tio, meia hora depois, com enxada partida. Um infortúnio, que pode acontecer a qualquer um.

PS - Passaram 37 dias e continuamos sem saber se aquelas 64 pessoas (foram mesmo 64?) tinham mesmo que morrer. Se ninguém cora de vergonha, eu coro.

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