O Papa fantasmas

Publicado a
Atualizado a

Um ateu dizia-me por estes dias, em Fátima, que é impossível ser-se insensível ao fenómeno, independentemente daquilo em que cada um acredita - ou mesmo que não se acredite em nada. Verdade, concordei eu. Nem sempre pelos melhores motivos (é bom acrescentar), mas não deixa de ser verdade. Fátima é, em muitas coisas, o espelho da Igreja Católica. E a Igreja Católica é, por sua vez, um retrato mais ou menos fiel do mundo em que vivemos.

Francisco provou ser um Papa corajoso, é preciso dizê-lo com frontalidade. Chegar a Fátima, perante milhares de peregrinos, e dizer que é preciso distinguir Maria de uma "santinha a quem se pede favores a troco de pouco dinheiro" é de quem sabe o poder que tem e não tem medo de o exercer. Dizer isto em Fátima, local para onde se peregrina durante quilómetros, onde se rasteja com o corpo em ferida - tantas vezes a arrastar crianças - e onde caem milhões de euros todos os anos a troco de um "favor" pedido à "santinha" é de quem percebe o papel que tem de desempenhar como número um da Igreja.

A Igreja, como um país, como a Europa, como o mundo, precisa de líderes. E ser líder é ter o carisma necessário para conseguir mudar pequenas coisas que um dia serão grandes. É ter a coragem de o fazer. É ser inteligente na forma como o faz. Francisco sabe que não se muda a Igreja de um dia para o outro. Sabe que, para atrair fiéis, não pode correr o risco de perder os que já tem. E também sabe que há mudanças para as quais a Igreja ainda não está preparada.

Ele parece estar a prepará-la, mas, para isso, o Papa precisa de realinhar uma doutrina que, nuns casos, resulta de interpretações deturpadas da Bíblia e, noutros, foi sendo desvirtuada ao longo dos séculos. Não se mudam séculos em anos, mas alguém tem de começar: quando diz o que diz em Fátima, mas também quando vai à Suécia participar nos 500 anos da reforma de Lutero; quando pede à Igreja que não discrimine nem julgue a homossexualidade e os que que recorreram ao aborto, mesmo que não tenha mudado, no essencial, a doutrina da Igreja sobre estes dois assuntos; quando tem de lembrar aos católicos e ao próprio clero (imagine-se) o óbvio: Deus perdoa, não castiga; ou quando diz que "é melhor ser ateu do que católico não praticante". Tudo isto tem de fazer parte de um processo de mudança que, para muitos e para mim também, é claramente insuficiente, mas é qualquer coisa.

Independentemente do credo que cada um professe, ou mesmo para quem não acredita em nada, é uma evidência que o papel da Igreja pode ser determinante no curso do mundo. Para o bem e para o mal. Pela mobilização que ainda consegue (meio milhão de pessoas em Fátima neste fim de semana é um número que nenhum partido político consegue mobilizar, muito menos de forma espontânea), a Igreja tem uma responsabilidade acrescida nas mudanças de que a sociedade e o mundo precisam. Mas, para isso, tem de estar do lado certo da história. E se é verdade que nem sempre esteve, não é menos verdade que ainda vai a tempo.

Quando digo que a Igreja é, tantas vezes, o espelho do mundo, tem precisamente a ver com isto. Ela nunca evolui à velocidade que queremos, nem sempre vai no sentido que gostaríamos e precisa de líderes carismáticos que tenham a influência necessária para conseguir as pequenas grandes mudanças. O Papa Francisco pode ser um desses protagonistas, se continuar a combater fantasmas, com inteligência e no tempo certo. Até porque, neste caso, e ao contrário da política, não precisa de ser reeleito, e isso pode ajudar.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt