Jesus e a revolução judeo-cristã

1 As sabedorias filosóficas antigas, orientais e da Grécia, elaboraram "espiritualidades" em ordem a uma vida boa, sem passar nem por Deus nem pela fé. Foi frente a essas sabedorias que o cristianismo, a partir da sua herança judaica, ergueu uma orientação nova, religiosa, de salvação, enraizada na fé num Deus pessoal, transcendente e criador. Essa nova representação foi "tão atraente e prometedora" que triunfou durante séculos sobretudo na Europa. Esta é a tese desenvolvida pelo filósofo não crente Luc Ferry, antigo ministro da Educação em França. O que é facto é que, "entre o século V e o século XVII, o Ocidente foi essencialmente cristão, cultural e filosoficamente cristão, de tal modo que a filosofia moderna, a partir do século XVII, mesmo quando foi crítica em relação às religiões, até resolutamente ateia, não deixou de ser marcada de modo decisivo por esta herança religiosa". O fundo de cultura judeo-cristã é omnipresente e por isso "é indispensável" que mesmo os não crentes se interessem e captem os traços fundamentais dessa cultura, para "se compreenderem a si mesmos e compreenderem o mundo dentro do qual vivemos", escreve Luc Ferry. A pergunta é: "Que havia de tão profundo, de tão sedutor, atraente e fascinante na mensagem de Jesus (e concretamente no que se refere à morte que injecta sempre a angústia no coração dos homens), para ter-se arrogado com tanta força o monopólio da definição legítima da salvação e da vida boa, em detrimento das espiritualidades filosóficas que formavam o essencial das sabedorias antigas?"

2 "O primeiro e mais importante ponto de ruptura" com as grandes cosmologias e sabedorias antigas "situa-se na personificação do divino". O cosmos, o Logos eram divinos, o divino era o cosmos, o Logos. Ora, logo no início do Evangelho segundo São João, lemos que "no princípio era o Logos, e o Logos fez-se carne". O Logos é uma pessoa. Deus encarnou em Jesus Cristo. O divino já não se confunde com o cosmos, o Universo anónimo, mas é uma pessoa. Já não estamos dentro de uma ordem impessoal e anónima, e isso "implica uma mudança radical na relação com Deus". Aliás, foi com o cristianismo que se deu a descoberta da pessoa e a afirmação de que todos os seres humanos são pessoas, o que não acontecia nem na Grécia nem em Roma.

Por outro lado, a nova atitude do homem perante o Deus pessoal só pode ser a da confiança, da fé (fides, donde vem fé e confiança). A entrega confiada a Cristo e a Deus é que é decisiva. Daqui provém uma nova relação entre fé e razão: crer para compreender, compreender para crer.

3 O nascimento da moral cristã constituiu uma ruptura radical com as éticas aristocráticas gregas. "Primeiro passo para a democracia moderna, para os direitos do homem e para a ideia de igualdade, a moral cristã faz literalmente voar em estilhaços os princípios fundamentais das grandes éticas aristocráticas gregas. Estamos perante uma revolução de uma amplidão abissal, verdadeiramente a única revolução moral realmente importante desde há dois mil anos: crentes ou não, vivemos ainda assentes em valores elaborados pelo cristianismo". Aliás, "não é por acaso que a democracia moderna foi instaurada num mundo culturalmente cristão e em mais lado nenhum".

Isto vê-se bem na parábola dos talentos. O terceiro servo, com um talento apenas, teve medo e enterrou-o. Ora, "o medo é o contrário da confiança, da fé" e, por isso, o senhor insulta-o. Contra a visão moral aristocrática, "a dignidade de um ser não depende dos talentos recebidos à nascença, mas do que se faz deles, não da natureza e dos dons naturais, mas da liberdade e da vontade, sejam quais forem os dons à partida". Há desigualdade por natureza, mas "é o trabalho que valoriza o homem, não a natureza". Isto é uma revolução, pois "introduz a ideia moderna de igualdade entendida no sentido da igual dignidade dos seres, independentemente dos talentos naturais". Como teorizará Kant, não é a força, a inteligência, a beleza, etc. que são fonte de moralidade, pois pode-se usar esses dons na direcção do bem ou do mal; por isso, é a liberdade, a vontade boa, que constitui a moralidade; a virtude depende do dever-ser e não das disposições naturais.

4 Jesus revela Deus como amor incondicional, que, portanto, não abandona os seus nem sequer na morte. Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Contra a eternidade impessoal proposta pelas filosofias do cosmos, o cristianismo promete que "nunca morreremos verdadeiramente, que nunca estaremos sós, que seremos sempre amados, e que reencontraremos após a morte os seres que nos são queridos". Sem Deus pessoal e salvador, na morte só resta a dissolução no Todo impessoal e anónimo. "Na medida em que se acredita, a promessa de Jesus é incomparável, infinitamente mais exaltante e mais sedutora do que a de ser um grão de pó cósmico, cego e anónimo, para a eternidade." É cada um que é pessoalmente convocado e que pessoalmente tem de decidir. "O que confere à promessa de imortalidade uma aura propriamente inigualável" é que está em conexão com "uma filosofia do amor de uma rara profundidade. É pelo amor que somos salvos da morte". Deus é amor e o amor é mais forte do que a morte.

5 Em A Gaia Ciência, Nietzsche pôs um louco a proclamar a morte de Deus: "Para onde foi Deus? Matámo-lo. Nós somos os seus assassinos." E este foi o maior feito da humanidade. Mas agora é o niilismo. E "que significa o niilismo?", pergunta Nietzsche, para responder: "Que os valores mais altos perdem o seu valor." Por isso, continua o louco: "Para onde nos leva a nossa corrida? Há ainda um em cima e um em baixo? Não andamos à deriva através de um nada infinito? Deus morreu. Como nos consolaremos?"

É preciso ser consequente: se tudo caminha para o nada e se afunda no nada, já tudo é nada. E o que é que verdadeiramente vale?

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