A revolução de Francisco: irreversível?

1 A propósito do meu livro sobre o Papa Francisco: Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo, que acaba de ser publicado, e a partir de debates provocados por ele, muitos me têm feito a pergunta em epígrafe: será a revolução de Francisco irreversível?

2 Antes de mais, em que consiste esta revolução? Diria que ela tem várias vertentes, distinguindo concretamente duas: uma mais imediatamente para dentro da Igreja e outra para fora, embora seja perfeitamente pertinente perguntar se ainda faz sentido este "dentro" e o "fora".

3 A revolução da Igreja dentro dela própria é, acima e antes de tudo, a conversão, isto é, tentar fazer que os católicos, a começar pelos cardeais, bispos, padres, se convertam ao Evangelho de Jesus. De facto, o fascínio deste Papa vem daí: do facto de ele se comportar como Jesus enquanto revelação do Deus que é Pai e Mãe e cujo nome é Misericórdia. Ele vive uma vida simples, humilde, abraça e beija as pessoas, manifesta-lhes afecto e ternura, a começar pelos mais pobres, frágeis, abandonados, humilhados e ofendidos... Por palavras e obras.

Sendo a Igreja uma imensa instituição, evidentemente que tem de haver uma revolução nas estruturas. Aí está a reforma da Cúria, tolerância zero para a pedofilia, transparência no Banco do Vaticano, onde são intoleráveis a presença de máfias, corrupção, desvios.

No plano do governo, impõe-se o respeito pelos direitos humanos também no seio da Igreja, concretamente, respeito pela liberdade de pensamento e expressão; Francisco não condenou teólogos. Não se pode continuar num centralismo romano, com o objectivo da romanização da Igreja. Francisco tem posto em marcha a sinodalidade, isto é, um processo que conduza a Igreja à participação de todos, incluindo leigos e leigas, em todos os níveis da vida eclesial: nas paróquias, nas dioceses, na Igreja universal. Se a Igreja "somos todos", como repete Francisco, o poder tem de ser participado por todos, sem esquecer os diferentes carismas. Por outro lado, se a Igreja é uma instituição global, não pode propugnar a uniformidade, tem de haver inculturação, isto é, há a necessidade de atender às várias culturas no modo de viver o Evangelho, nos diferentes planos: teológico, moral, pastoral, celebrativo- -litúrgico, organizacional. Uma Igreja em rede, a cuja unidade na caridade preside o Papa.

Atenção especial vai merecer a necessidade de as comunidades poderem celebrar a Eucaristia. Aqui, é inevitável o fim da lei do celibato obrigatório, começando pela ordenação de homens casados. Esse processo está aliás a caminho. Numa entrevista recente a Die Zeit, Francisco declarou que a falta de vocações é "um problema enorme e como tal a Igreja tem de resolvê--lo". Mais recentemente, o cardeal Walter Kasper disse que é preciso agir: "A discussão é urgentíssima. O Papa pensa que esta discussão vale a pena; vê-a com bons olhos. Os episcopados podem aproximar-se do Papa e fazer-lhe a correspondente petição. O Papa responderá positivamente. Agora depende das conferências epis- copais." E não pode haver discriminação para as mulheres; como disse o secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, nada impede que o seu sucessor seja uma mulher.

Exigência maior é a continuação do impulso para o diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs e o diálogo inter-religioso. Mais um exemplo de Francisco: apesar dos ataques bárbaros e infames contra os cristãos coptas no Egipto, no Domingo de Ramos, ele segue para o Cairo nos dias 28 e 29 deste mês, acompanhado por Bartolomeu I, patriarca ortodoxo de Constantinopla, numa visita assente no "espírito de tolerância e diálogo", activando esse diálogo no encontro com o Papa dos coptas e com o grande imã da universidade islâmica do Cairo Al-Azhar. Francisco sabe que o número dos cristãos e dos muçulmanos juntos é superior a mais de metade da humanidade.

4 Muito recentemente, uma das pessoas em quem Francisco mais confia, o jesuíta Antonio Spadaro, lembrava que "o Papa Francisco é um grande líder, talvez o líder moral do mundo". É, de facto, um líder político-moral planetário - está em curso o estudo da possibilidade de uma visita a Moscovo e sobretudo a Pequim -, que tem uma palavra essencial a dizer em problemas decisivos de humanidade e para a humanidade: questões da paz (e aí estão as suas intervenções positivas na relação entre Israel e a Palestina, Cuba e os Estados Unidos, Colômbia, Venezuela; irá em breve ao Sudão do Sul, juntamente com o arcebispo anglicano de Cantuária...), questões de justiça social num mundo globalizado (o centro da economia tem de ser a pessoa humana e não o deus Dinheiro), questões de ecologia (a Laudato Sí fará história), questões de bioética também no que se refere a problemas novos colocados pela ciência e a tecnologia, por exemplo, pelas NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas e do cérebro em geral)...

5 A. Spadaro também lembrava que "há oposições que se tornam raivosas, dão-se conta de que Francisco está a falar a sério". Francisco também confessou ao padre Adolfo Nicolás, superior dos jesuítas até há pouco tempo: "Criticam-me porque não falo suficientemente como Pontífice e porque não actuo como um rei". Daí, a pergunta: que marca deixará o seu pontificado?

Penso que é praticamente impossível voltar atrás em relação concretamente ao estilo que imprimiu: a simplicidade, uma Igreja "em saída", participativa, sinodal, mais pastoral, centrada no Evangelho e não no Direito Canónico. Reverter o processo seria desastroso para a Igreja e para o mundo. De qualquer modo, Francisco também confessou a Adolfo Nicolás: "Peço ao Bom Deus que me leve quando as mudanças forem irreversíveis."

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