O banqueiro anarquista

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António Domingues recusa apresentar a declaração de rendimentos ao Tribunal Constitucional. Parece que ele tem um parecer jurídico, escrito pelos advogados da Caixa Geral de Depósitos, que tenta justificar a recusa com todos os artigos e alíneas e interpretações que um homem letrado pode conceber. Mas pergunto-me: como será que Domingues encomendou a opinião?

Assim?

(Ora bem, preciso que vocês me encontrem maneira de sustentar esta ideia: como não tenho de cumprir o Estatuto do Gestor Público por razões salariais e de concorrência, isto é, para poder ganhar mais e em linha com o que eu recebia, e pelo caminho também para cumprir as exigências que a Comissão Europeia fez para que seja possível o aumento de capital do banco sem que o considerem uma ajuda pública - vocês sabem: Bruxelas é muito apegada às aparências -, quero que estendam esta ideia de eu ser um gestor público, sim, mas na verdade ser um gestor privado. Eu sou uma espécie de mil-folhas, uma camada por fora, mas outro recheio por dentro. Ou seja, estimados advogados, eu não quero apresentar a declaração ao Tribunal Constitucional.)

Terá sido assim?

Não sei, não é costume estes pedidos serem feitos por escrito e deixarem rasto; e como ninguém me contou como tudo realmente aconteceu, só posso especular, embora com alguma moderação. No entanto, sei o que parece. E o que parece é que António Domingues não quer perceber. Insiste em ignorar as obrigações e os constrangimentos, não apenas os legais, mas também os éticos, que vêm obrigatoriamente no pacote Caixa Geral de Depósitos.

Não estou a pensar no salário elevado. Já me cansa esta insistência demagógica, esta maluquice absurda sobre a remuneração de um banqueiro que não é um banqueiro qualquer - é o patrão do maior banco do país, controla 25% do mercado e tem uma importância extraordinária na economia nacional, como, aliás, todos sabemos pelas piores razões refletidas nos prejuízos.

Esqueçamos então o salário. Ou não. Vou pôr a colher no assunto uma última vez.

A decisão de fixar o pagamento de António Domingues à mediana do que é pago no país em funções similares é (foi) uma boa decisão de António Costa. Uma decisão politicamente difícil de gerir dentro do governo, com os partidos que apoiam o governo e com o país inteiro, um país ainda a ressacar da Grande Recessão. Falar de vencimentos e juntar-lhe a palavra proibida - banqueiro, oh diabólicos e venais banqueiros - é coisa para rebentar com muita coisa e apelar aos piores instintos: inveja, primarismo, cegueira, tudo bem embrulhado com um laço demagógico.

Não é fácil convencer as pessoas de que o anterior sistema (um salário equivalente à média dos três anteriores) pode falhar se o gestor contratado não tiver, digamos, o pedigree obrigatório. Ou seja, se a escolha recair em alguém do Banco de Portugal, como já aconteceu, é natural que o preço a pagar seja mais baixo, mais contido - alguns diriam mais decente -, talvez até metade. Por outro lado, a esta pessoa faltará conhecer o coração do negócio bancário. Não terá o impulso comercial e a experiência necessários para incluir esta variável nas decisões que terá de tomar todos os dias do ano para conseguir bons resultados. Um bom economista sabe de economia, não sabe rigorosamente nada de gestão.

António Domingues sabe de gestão, gestão bancária. Ele não era o número um do BPI, mas era influente, muito até, andava pelo topo de pirâmide, tinha autonomia para gerir alguns braços do negócio, logo, 30 mil euros brutos é, provavelmente, o preço certo a desembolsar. António Costa fez bem em ir buscá-lo - isto sem esquecer que também se tratou de uma promoção inesperada para António Domingues. Quem diria há um ano que ele iria mandar no maior e mais sistémico banco português? Haverá melhor maneira de encerrar uma carreira do que atingindo gloriosamente o cume?

Pois é. O cume. Esta coisa da escalada em alta montanha - o que é um banco senão um vértice? - tem certas exigências, provoca alguns efeitos adversos. Lá em cima o ar é mais rarefeito, é mais exigente, é mais cruel, confunde, baralha as ideias. Uma decisão errada pode ter consequências desastrosas para o próprio e para os outros. No limite, até pode desencadear uma avalancha. Pois António Domingues, que tão bem se havia portado e resistido às primeiras intempéries, respondendo com seriedade e confiança às perguntas dos deputados, acabou agora por tomar uma daquelas opções imperdoáveis.

Escondendo-se atrás de um parecer jurídico - sabendo nós que os pareceres são como um homem quiser e o dinheiro conseguir pagar; isto é, valem muito pouco -, o novo CEO da Caixa Geral de Depósitos deixou o primeiro-ministro e o ministro das Finanças numa situação delicada, exposta ao vendaval de todas as críticas - logo eles que tanto arriscaram para o ter naquele lugar. Se António Domingues queria ser anarquista, se não queria cumprir as regras e os costumes - prática social reiterada com convicção de obrigatoriedade -, podia ter esperado uns anos. O país agradecia. Não teríamos de sofrer logo agora mais uma discussão perfeitamente evitável. Isto apesar de um banqueiro anarquista ter até um cachê literário.

Diretor adjunto da RTP

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