Também já fui a cigana (ou a preta) dos outros

Ela consegue fazer isto, é espantoso. Esta era a reação do patrão que me tinha atribuído uma tarefa ridiculamente fácil, mas como eu era portuguesa ele não esperava que eu conseguisse. Estávamos em Bruxelas em 1973, talvez início de 1974, e naquela pequena empresa os únicos belgas eram o dono e a secretária. Nós, os outros, éramos uma espécie de equipa benetton: uma congolesa, uma espanhola, um vietnamita, uma polaca e eu. Recebíamos menos e tínhamos menos direitos do que os da Comunidade Económica Europeia, na altura constituída por França, República Federal da Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. E mais o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca, que tinham acabado de entrar.

Nós éramos todos de fora e isso criou cumplicidades com significados diferentes. Anne-Marie, linda e sempre vestida de capulanas espetaculares, era casada com um opositor de Mobutu, um homem de Lumumba que tinha sido forçado a deixar o então chamado Zaire. Tínhamos uma cumplicidade política, uma coisa em meias-palavras. Blanca era exuberante e atrevida. Aproveitava as ausências do chefe e da secretária para falar ao telefone com o namorado em Espanha. Ríamo-nos, só eu percebia o que ela dizia. Barbara encantava-se com os sons do português e de vez em quando ia a minha casa. Gostava da palavra nuvem. O contabilista Trinh era discreto, não convivia connosco.

O patrão, bigodinho estreito e sotaque de Bruxelas, e a secretária eram os únicos monsieur e madame. Nós éramos Anne-Marie, Blanca, Barbara, Trinh e Ana.

A imigração portuguesa tinha sido cortada na Bélgica mas, nesses anos antes do 25 de Abril, o país acolhia quem pedia asilo ao Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas. Havia ONG que disponibilizavam apoio, e a segurança social oferecia um subsídio, as primeiras rendas de casa e algum recheio essencial. Apresentávamo-nos às autoridades todos os meses.

Só tínhamos acesso aos trabalhos que requeriam menos habilitações, enquanto esperávamos o estatuto de refugiados da ONU, as bolsas de estudo ou o reconhecimento das habilitações. Mesmo depois de conseguidos "os papéis" os obstáculos não desapareciam. Era preciso provar--se que se era capaz. A cor da nossa pele era avaliada. Portuguesa e loira? estranhavam constantemente, como se fosse impossível. Vínhamos da Europa do Sul e abaixo de nós, na cadeia alimentar, estavam os marroquinos e os congoleses, as comunidades mais numerosas de então. O G, nascido em Moçambique e desde miúdo criado em Portugal, foi uma vez apanhado a comer morangos no supermercado. Tinha saudades de morangos. Humilharam-no como se fosse um criminoso e ele chorou de raiva.

Se conto isto não é para reivindicar nada, é apenas para dizer como é fácil sermos tratados como "os outros", aqueles de quem se desconfia porque não pertencem ao grupo. Estávamos na Bélgica depois de termos sido recambiados na fronteira da Suécia: "Estamos fartos de pagar impostos para vos sustentar." Puseram-nos no mesmo barco em que chegáramos, como se fossemos perigosíssimos, os passaportes riscados a vermelho e entregues à polícia marítima. Tínhamos a polícia alemã à espera para nos interrogar e finalmente lá nos deixaram apanhar o comboio para Bruxelas.

Este é o tema destes dias, em Portugal, 2017, com a revelação de situações insuportáveis na Cova da Moura e com a discussão sobre palavras de um candidato autárquico sobre ciganos. E a este propósito tenho, assim de repente, duas reações. Uma é aplaudir e adotar a resposta de Mamadou Ba na RTP: não entro em concursos de burrice. Não me faz sentido repisar argumentos mais do que esclarecidos. Outra é voltar ao livro Racismo, de Francisco Bethencourt, português académico do King"s College de Londres. É um estudo profundo das origens do racismo. O historiador pesquisa e analisa as relações com "os outros" desde o tempo das Cruzadas e até ao século XX, para concluir que "o racismo foi motivado historicamente por projetos políticos". Percorre o mundo inteiro, os diferentes contextos, as teorias "científicas" das raças, os genocídios, as guerras:

"A norma de comportamento antirracista prevalece agora na maior parte do mundo. Todavia, o racismo não desapareceu. Abandonou, isso sim, a reivindicação de diferenças físicas, substituindo-as pela incapacidade cultural. A migração não é criticada com argumentos físicos, mas sim através da ideia de atraso cultural de incapacidade de adaptação. O argumento da inferioridade foi abandonado no debate político; agora, os imigrantes são acusados de desfrutarem de assistência social que não foi criada por eles."

Numa bela manhã a Anne-Marie chegou entusiasmada e disse-me: houve uma revolução no teu país. Abraçou-me, em festa ela também. Consegui a custo que o patrão pagasse o dinheiro que me devia. Era pouco, evidentemente, mas deu para pagar a viagem de comboio.

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