O dia em que deixou de haver espaço para a indiferença

Depois da chegada de Trump à Casa Branca sem dúvida que a arte - como a ciência - vai assumir um papel ainda mais redentor
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A primeira vez que fui ao cinema morava em Luanda e fui ao Miramar ver o filme Os três mundos de Gulliver. Olhei tantas vezes para trás, para perceber de onde vinha a imagem, que a minha mãe já estava incomodada com aquilo. Vira-te para a frente, o filme está ali, dizia-me. O que me inquietava era perceber como aquilo funcionava.

Passaram mais de 50 anos sobre esse tempo, ir ao cinema deixou de ser um momento solene que envolvia a família e um farnel, todo um programa. O Miramar - vi-o há dois anos - não é mais do que uma memória do espaço deslumbrante ao ar livre onde havia espetáculos e concursos - o famoso Cazumbi - e, claro, filmes, só à noite porque a luz do dia não permitia matinées. É sempre a esse momento que regresso quando penso em grandes ecrãs, embora tenha mais tarde frequentado os grandes cinemas de Lisboa - o Monumental, o Tivoli, o Império.

Como não tinha idade suficiente, não pude ver em 1963 (um ano depois da estreia em Londres) o enorme Lawrence da Arábia, de David Lean, uma superprodução em que os olhos azuis de Peter O"Toole e o deserto da Jordânia são omnipresentes e esmagadores. Lembro-me de ver a tela do filme quando passava na Avenida da Liberdade, no mesmo espaço depois ocupado durante muito tempo por uma Julie Andrews saltitante nos alpes austríacos da Música do Coração. Mas ainda consegui ver o filme no velho Monumental e mais tarde em casa, no ecrã da televisão, graças a um dvd duplo com saborosos extras, incluindo um ótimo making of.

O mesmo deve ter pensado quem no Centro Cultural de Belém resolveu inaugurar as sessões de cinema clássico, aproveitando o equipamento de alta qualidade que existe no Grande Auditório. A 18 de março será O Leopardo, de Visconti, com mais 20 minutos do que a versão que conheço (205 minutos no total). Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille, será exibido na Sexta-Feira Santa.

Hoje é dia de Lawrence da Arábia, às quatro da tarde, num ecrã com 8 por 16,5 metros e com boas condições de som para a inspirada música de Maurice Jarre. Nada de mais familiar: uma matinée com intervalo, como manda a sensatez, já que o filme dura quatro horas. A sala já foi antes experimentada para cinema, nomeadamente no Lisbon & Estoril Film Festival. São 900 lugares, como hoje não há nas salas.

Há muitas razões para sair de casa neste fim de semana, e não só para ver cinema, teatro (e que trabalhos tão bons estão em cena agora!), exposições ou passear ao sol. Depois da chegada de Donald Trump à Casa Branca, sem dúvida que a arte - como a ciência - vai assumir um papel ainda mais redentor.

O único fim do mundo é o fim do mundo, disse Obama na conferência de imprensa em que se despediu dos atos públicos dos oito anos de presidência dos EUA. No mesmo dia, os meteorologistas anunciaram que 2016 foi o ano mais quente desde 1880 e, mais assustador, que nos últimos anos tem sido batido sucessivamente esse record. Ainda nessa quarta--feira, o novo responsável da agência norte-americana para o ambiente disse que era preciso estudar se a mão humana tem um decisivo impacto nas alterações climáticas, parece que ainda não tem a certeza. Uns dias antes, foram divulgadas imagens da extensa brecha que se abre a uma velocidade crescente na Antártida, fazendo prever para os próximos tempos a deriva de um dos maiores icebergues conhecidos - com 5 mil quilómetros quadrados de superfície.

Uma hora antes de começar a sessão de Lawrence da Arábia (oh, céus!) arrancam em Lisboa, Porto, Braga e Faro marchas promovidas por mulheres que, em síntese, querem dizer: estamos aqui, não vamos esconder-nos à espera de um fim do mundo que não é o fim do mundo. A hora escolhida coincide com a da manifestação de Washington na qual são esperadas 200 mil pessoas. Essa será a mais significativa das centenas de marchas previstas para as cidades dos Estados Unidos e muitos outros países, com destaque para o Canadá, o México e muitos europeus.

Outras afirmações individuais e coletivas vão disparar nos próximos tempos, e certamente num país que tem um historial de resistência e de combate pelos direitos cívicos. O risco de se perderem as liberdades fundamentais, de a discriminação ser lei, de serem revertidas as políticas públicas de educação e saúde, tudo isso é assustador e vai afetar gravemente as vidas de muita gente. Serão tempos duros e a indiferença vai ser muito difícil de manter.

Mas as questões ambientais e a política internacional são os campos que mais me preocupam neste novo presidente. Porque podem tomar caminhos irreversíveis, levar a escaladas incontroláveis de perigo. E como há dias para tudo, escolhi (para mim, coisa discreta) a designação de "dia em que deixou de haver espaço para a indiferença" para este 20 de janeiro. Eu sei que é uma data que tem muitos títulos e muitas efemérides, até porque é o dia de S. Sebastião e é sempre aquele em que tomam posse os presidentes norte americanos. Mas para mim fica como o dia em que não ter opinião não pode ser confortável, porque o icebergue é enorme e está mesmo à frente dos nossos olhos.

O que me faz voltar à matinée do CCB: o que vai Trump fazer naquele Médio Oriente que T. E. Lawrence tanto amou, onde foi espião britânico e guerreiro cruel, e que David Lean filmou com lentidão? E voltando ainda mais atrás, ao foco de luz que enchia o ecrã do Miramar: procurar perceber como as coisas funcionam continua a inquietar-me.

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