Comecei a ler a autobiografia de Bruce Springsteen porque precisava de distrair-me depois de um ano difícil. A partir desse dia, o meu sono foi adiado e agitado pela crueza tocante do Boss. Eu devia ter previsto que isso ia acontecer - afinal de contas, a música dele não é um mar de rosas e as letras nunca são básicas. Mas quis estupidamente pensar que uma história de rock & roll era entretenimento. Born to Run conta um combate permanente contra a depressão e o impacto de um pai destrutivo. E um combate obsessivo pela música, por um som estudadíssimo a servir letras que são o retrato da América do rapaz nascido em Nova Jérsia. É também uma poderosa reflexão sobre a música, e em particular sobre o rock, e as pessoas nele envolvidas..Porque é que uma pessoa escreve a autobiografia? Há muitas respostas para esta pergunta, num espectro bem aberto. Álvaro Cunhal nunca quis escrever as memórias nem autorizou ninguém a fazê-lo, apesar de ter tido uma vida riquíssima e de ter testemunhado muito do que foi o século XX na Europa. Felizmente Pacheco Pereira avançou com uma investigação tão meticulosa que terá levado Cunhal a confessar que o biógrafo sabia mais do que ele sobre a sua vida. Depois de uma entrevista que lhe fiz, e perante a minha incompreensão das razões de deixar por contar o que vivera, respondeu-me que uma autobiografia envolve sempre uma dose de autoelogio e autoindulgência e que não queria ir por esse caminho. Tinha acabado de ler as memórias de um homem que considerava heroico e extraordinário e mesmo aí encontrara sinais desse pecado. Como seria a vida dele contada por ele? Aquela persona enigmática que projetava para o exterior, homem de um partido e de muitos segredos? Ser-lhe-ia possível reduzir ao mínimo as restrições que a si mesmo impôs?.Estou a reler Amália - Uma Biografia, de Vítor Pavão dos Santos (Editorial Presença, 2005), escrito com base em 25 conversas - 78 horas de gravação - com a cantora. E ando a ler também as memórias caseiras do meu avô paterno, um documento que ele escreveu à mão, foi datilografado pelos netos e está recheado de fotografias..Gosto muito de ler biografias e autobiografias, é uma das prateleiras que procuro primeiro numa livraria. Desde criança que me encantam as vidas exemplares, e nisso incluo a coleção "Gente grande para gente pequena", de Adolfo Simões Müller, em cujos livros conheci a cientista Marie Curie, a enfermeira Florence Nigthingale e até Camões, o Trinca-Fortes. A vida dos outros ensina-nos muito sobre o passado, sobre eles e, bem vistas as coisas, sobre nós próprios..Tanto Amália, com a sua genuína inteireza, como o meu avô, que queria deixar um registo destinado à família (deu aos dois volumes o extenso título de Uma vida inteira. Memórias, recordações e datas, para consulta ou recreio de parentes, descendentes e até aderentes, de 1901 para cá. Memórias de um desconhecido), caem na armadilha que Cunhal sabia inevitável, ao ocultarem instintivamente aquilo a que Carlos Tê chama o lado lunar, a face negra. Mesmo quando se riem de si mesmos - e ambos o fazem com abundância - não estão isentos dessa omissão. Mas isso para mim não tem relevância especial, porque o olhar que têm sobre o que são, o que fizeram e o que viram é o que me interessa realmente..E Bruce no meio disto, então? Não saberei nunca o que ele omitiu nem isso me inquieta. O que ele conta é mais do que suficiente. São 572 páginas de texto e 16 de fotografias (edição Elsinore, 2016), e são densas - thick as a brick como o quinto álbum dos Jethro Tull, para ir buscar uma referência ao início dos anos 1970 (e enviesadamente falar do britânico que revolucionou a agricultura nos tempos da Revolução Industrial). O rapaz de Nova Jérsia não se descreve como o maior, o mais puro, o mais justo. Traz à luz os erros, os obstáculos, os abismos. O Boss - efetivamente o boss dos grupos que liderou, com músicos excecionais como os da E Street Band - sente-se minúsculo quando dá por ele ao pé de Bob Dylan ou Paul McCartney, heróis da sua juventude, influências decisivas que o guiaram na escolha da música como centro da vida e forma escancarada de se mostrar ao mundo..É evidente que Born to Run não é de todo comparável a Se É Isto Um Homem, de Primo Levi, porque as asperezas da vida dele não nascem da desumanidade, do mal. O inferno de Bruce não lhe foi imposto por uma instituição nem uma ideologia, é um caso pessoal de que vai ganhando consciência ao longo da vida. Aos 67 anos e depois de 30 de psicoterapia, ele desmonta e rearruma o que viveu. Já pode compreender o pai que o assombrou e falar dele com uma ternura imensa. Já pode falar do constante caminhar no arame da depressão que repetidamente o atirou para o escuro mais escuro..Born to Run é a história de um rapaz desastrado e rebelde que se tornou um ídolo mundial e que nunca deixou de se pôr em causa. Ele nasceu para correr, com as suas origens irlandesa e italiana, com a sua total teimosia que pode levá-lo - que o levou - a demorar um ano a completar a mistura de um álbum até aceitar divulgá-lo. Que constrói cada álbum com princípio, meio e fim e não apenas num repositório de canções para entreter. Que exulta quando consegue fundir-se com um público desconhecido no centro de África. E que, ao contrário de outros grandes da sua área - Jimmi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison - viveu para contá-la. Como diria Gabriel Garcia Márquez.