A felicidade da arte contra o medo e a náusea

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Um portão enorme de ferro abre-se, numa atmosfera de bruma povoada de soldados. Esse é o início, o "Era uma vez" de um filme perturbador que há de terminar com o fecho do portão. Entre um momento e outro, são três dias de medo impregnado em todas as personagens, mesmo no homem que o impõe. "Todos mentem a Estaline, até Estaline mente a Estaline", há de dizer ele lá pelo meio, diante do espelho.

Fanny Ardant realizou O Divã de Estaline e não tem contemplações perante o tirano e os que o rodeiam. Na noite da antestreia, contou o mesmo que tinha dito em entrevistas anteriores: a ideia inicial era partilhar o plateau com Gérard Depardieu. Com ele tinha contracenado em A Mulher do Lado, de François Truffaut, de 1982, os dois atores com pouco mais de 30 anos, os dois lindos (sim, Depardieu já foi um jovem bonito e magro, e quem viu 1900, de Bertolucci, há de lembrar-se de Olmo), suspensos num reencontro vertiginoso. Ela queria dar-lhe um papel bigger than life, shakespeariano, e encontrou-o quando leu o romance de Jean--Daniel Baltassat Le Divan de Staline. Perguntou-lhe: aceitas fazer o papel de um monstro? E ele, claro, aceitou.

E aqui está agora Gérard Depardieu no papel do monstro, Estaline ou outro, como ele próprio explicou: podia ser Júlio César ou Alexandre ou Gengis Kan ou Robespierre, disse ele. O homem que detém o poder absoluto, rodeado por seres que despreza, transidos de pavor na sua presença. Apenas uma mulher, Lidia, a amante de décadas, tem a força suficiente para encará-lo, porque não tem ilusões. Sabe desde o início que conhecer os segredos dele é garantir uma sentença de morte. Lidia é Emmanuelle Seigner, admirável de segurança e fragilidade, e ocupa o papel que Fanny poderia ter desempenhado, a contracenar com Gérard. Fanny gostaria de tê-lo feito mas não pôde: como atriz, explicou, precisa de estar livre, não pode estar totalmente consciente do que se passa nas filmagens como exige o lugar de realizadora.

O ambiente é todo ele claustrofóbico, mesmo se tem árvores e um lago. É um palácio que no romance se situa na Geórgia, terra natal de Estaline, mas no filme é acima de tudo imponente e fantasmagórico, como o castelo do Barba Azul. Afinal, é o muito nosso Palácio do Buçaco, com as suas reviravoltas a recordar o manuelino, e todos os figurantes são do Luso, os homens com fardas feitas na Rússia, as mulheres vestidas de criadas para servir o grande senhor. Três atores portugueses - Lídia Franco, Joana de Verona e Miguel Monteiro - fazem parte do elenco e brilham também. A mata do Buçaco, densa e esplendorosa, torna-se rapidamente uma personagem do filme.

O trabalho do ator-monstro é arrasador de bom. Depois das últimas cretinices de Depardieu, da amizade com Putin, da barriga de Obélix, das 13 garrafas de vinho por dia, aqui está ele inteiramente na personagem, o ator enorme, ele que em termos físicos nada tem em comum com um Estaline em fim de vida à exceção de um bigode, a experimentar o universo de Freud - "o charlatão", como lhe chama - como quem tenta aventurar-se num mar gelado e se fica por um toca-e-foge na espuma das ondas: com medo de decifrar os próprios sonhos.

Ser ator é esta extraordinária capacidade de mudar de pele e transfigurar o próprio olhar para nos contar uma história. Uma pessoa pode sentir-se cheia de sorte se numa semana vir um desempenho avassalador como o de Depardieu, e se lhe juntar o de Emmanuelle Seigner já está a ganhar pontos. Mas se ainda lhes acrescenta mais algum, então é bem capaz de aliviar a náusea de todos os dias assistir às decisões da administração dos Estados Unidos, o impensável tornado realidade.

E é que há mesmo mais, e para ser ainda mais adequado a coisa passa-se entre norte-americanos e no México. É preciso persistir, porque a bilheteira está quase esgotada, mas vale a pena conseguir um lugar para ver A Noite da Iguana com Nuno Lopes, Maria João Luís e Joana Bárcia, encenados por Jorge Silva Melo. Os Artistas Unidos, essa teimosa casa sem casa, no seu melhor.

O texto de Tennessee Williams é extraordinário, feito de seres solitários à beira do abismo, desesperadamente a precisar da ajuda de outros e a recusá-la, incapazes de aceitar o aconchego. Nas palavras do autor, "A Noite da Iguana é uma peça sobre como viver para lá do desespero e mesmo assim ainda viver". E o trabalho dos três principais atores e do encenador, o cenário, as outras personagens que perpassam pelo palco - tudo concorre para essa intensidade. Até 5 de fevereiro está no São Luiz, depois vai para o Porto (Teatro Nacional de São João, de 9 a 26 de fevereiro) e seguem-se Aveiro, Almada e Loulé.

"Já alguma vez ajudou um homem de cadeira de rodas colina acima?", pergunta Hannah (Joana Bárcia). "Nem colina abaixo", responde Maxine (Maria João Luís).

"Ah, pode ser que viver seja isso: ajudar." Isto diz Jorge Silva Melo no texto da folha de sala a propósito de um diálogo da peça. Pode ser.

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