O milagre que ninguém queria

Publicado a
Atualizado a

Às três da tarde de domingo, várias prateleiras de comida no supermercado Whole Foods de Hollywood Norte estavam vazias. Uma razia nos donuts - até os vegan -, tartes, queques, pizas e snacks de milho. Só o guacamole a sete dólares continuava disponível. Atravessei a cidade em menos de meia hora porque não havia trânsito. Estava tudo a postos para o maior acontecimento desportivo do ano nos Estados Unidos: a Super Bowl.

Neste ano, é seguro dizer que praticamente toda a gente torcia pelos Atlanta Falcons. Não porque fossem fãs da equipa, mas porque os New England Patriots se tornaram uma espécie de ódio de estimação, com a sua mania de ganhar a torto e a direito e os percalços da superestrela Tom Brady (é pesquisar o deflategate). Os Falcons eram a surpresa, os caloiros, o underdog.

Depois de três anos nos Estados Unidos, achei que estava na hora de terminar a minha resistência ao futebol americano. Todas as razões que tinha para não ligar ao desporto nacional estavam erradas: achava que era demasiado violento, muito arrastado e aborrecido, cheio de paragens, dependente do embate de brutamontes e estupidamente longo - cada jogo dura cerca de quatro horas. Mas isto é precisamente o que o torna especial. É um acontecimento. Os amigos juntam-se nos bares a tarde toda, fazem-se festas em casa, a família veste-se a rigor, há tempo para tudo. Demora porque é um jogo de estratégia, inteligência e sangue-frio, que foi aquilo que os Falcons não tiveram quando se apanharam a ganhar 28-3 ao intervalo.

Quando a Lady Gaga entrou a voar com um cortejo de 300 drones, para um espetáculo acrobático recheado de grandes êxitos, havia um sentimento de gozo porque os caloiros estavam a dar uma lição aos favoritos. Na casa onde assisti ao jogo, empilhavam-se caixas gigantes de piza, circulavam batatas fritas e tiras de milho com o que só pode ser descrito como "molho de queijo" e bebia-se cerveja como água. Entre umas trinta pessoas, apenas duas estavam a torcer pelos Patriots - um porque tinha apostado dinheiro neles, o outro para ser do contra. Acima de tudo, queriam ver um bom jogo de futebol. E foi isso que tiveram, quando os Patriots renasceram das cinzas e foram para cima dos Falcons na segunda parte, recuperando os 25 pontos que tinham de diferença para garantir o primeiro prolongamento da história da Super Bowl.

Aí, venceu a experiência e a resiliência emocional. A equipa que consegue a recuperação extraordinária no último segundo é a que fica galvanizada, e não foi preciso muito tempo para que os Patriots acabassem com um touchdown magnífico que significou a morte súbita dos Falcons. Foi a quinta vez que venceram a Super Bowl nos últimos 16 anos. A ESPN chamou-lhe um milagre. O The Wall Street Journal escreveu que os Patriots rastejaram de dentro do túmulo para sacarem a vitória. Foi uma Super Bowl que ficará na história, escrita também em português - New England reúne uma das maiores comunidades de imigrantes portugueses nos Estados Unidos, de tal forma que os Patriots lançaram no ano passado uma versão do seu site em português. Em Artesia, uma cidade a 40 minutos de Los Angeles onde existe uma razoável comunidade portuguesa, estavam todos a torcer pelos Patriots.

De certa maneira, as duas Américas que se confrontam agora na política e nas quezílias sociais estiveram representadas nesta Super Bowl LI. De um lado, a equipa que toda a gente odeia - e que, por sinal, é apoiante do presidente Donald Trump. Do outro, a equipa aventureira, que quase conseguiu uma vitória histórica e perdeu num embate impróprio para cardíacos. Pelo meio, uma performance artística empenhada em unir esta América fraturada. Lady Gaga não fez qualquer afirmação de teor político como alguns esperavam, tendo em conta que a cantora foi uma aliada de Hillary Clinton na campanha. Os drones que sobrevoaram o estádio durante a atuação formaram a bandeira dos Estados Unidos. A NFL passou vários anúncios de tom patriótico, procurando relembrar os americanos que este amor pelo país foi o que sempre os uniu. Mas não é precisamente por isso que há tanta gente na rua? Não há nada mais americano do que futebol e contestação. Esta final foi apenas o princípio.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt