A incerteza da ordem internacional

Subitamente, a conduta sem objetivos claros do inquietante presidente dos EUA pode ter efeitos colaterais positivos, porque a pressentida quebra da solidariedade atlântica, pela incerta visão do parceiro americano, tem sinais de reanimar a solidariedade da União, o que também implica desenvolver, e escolher, entre as alternativas sugeridas a rápida redefinição das políticas dominantes, tão reclamada pelos chamados populismos. Convergem nesta data a nível da necessária renovação dos partidos, evidenciada pelo triunfo eleitoral do novo presidente da França, com um corolário previsível, ou pelo menos desejável, que será o despertar do abstencionismo dos eleitorados europeus, como se a política da União fosse mais uma função da eurocracia do que condicionamento dos seus futuros. Por surpreendente que possa ser um evento destes, na sequência de um também surpreendente tipo de gestor da política atlântica americana, o aparente descaso característico das intervenções deste pode desenvolver o retorno da convicção que orientou os fundadores da União. Isto porque não pode deixar de parecer uma intolerável atitude o facto de o porta-voz do presidente, seguramente obediente à disciplina de soldado, que é o general Mac Master, com a responsabilidade de conselheiro militar, ter declarado que, quanto à reunião próxima do G20, o presidente não tem nem agenda definida, porque "será sobretudo o que o presidente quiser falar". O despertar já conhecido da solidariedade e firmeza dos líderes europeus em funções anunciam a firmeza que as circunstâncias internacionais não dispensam, sendo de acompanhar a oportunidade para que a familiaridade dos povos europeus, e a intervenção dos seus órgãos nacionais, revigorem a participação igual nas decisões. A questão é tão mais desafiante quanto é de notar que coincide com um dos divulgados ditos do presidente dos EUA a propósito da inquietante política da Coreia do Norte, que leva a recordar o "Apocalypse Soon", de que deu notícia e alarme a Foreign Policy, prevenindo dos riscos da guerra fria tal como era conduzida pelo incomparável, no que toca à gestão em exercício, John Kennedy. O presidente George W. Bush também criou inquietação internacional quando advertiu os países que pretendiam chegar à posse de armas nucleares, uma política que chegou a ser denominada de bamboo-like, com o efeito contrário ao que pretendia com o aviso, se for de aceitar a opinião de que servia para incentivar justamente a Coreia do Norte e o Irão a quererem ter essa capacidade. Não falta à mesma opinião a convicção de que o antiamericanismo cresceu por tais lugares, de modo que as próprias viagens presidenciais passaram a exigir medidas de segurança especiais. Na recolha de informação de Moniz Bandeira, ele não podia permanecer mais de oito horas num lugar, mais de 16 horas em outro, não passava mais de 30 minutos no caminho do aeroporto, não dava nenhuma entrevista à imprensa nem tinha contacto com o povo durante suas viagens internacionais. Se, como parece, os efeitos descritos corresponderam aos factos, talvez devessem ser aproveitados como advertência para que a intervenção no G20, sem agenda conhecida, em todo o caso seja precedida de alguma advertência sobre a consagrada prudência diplomática, porque ninguém no Ocidente deseja que a autoridade dos EUA seja diminuída pela falta de informação de um dirigente cuja atitude parece ignorar a importância e o custo em vidas que foi não apenas salvaguardar, mas consolidar, a unidade do Ocidente, não apenas para o interesse deste, mas para a conservação do património imaterial da humanidade. Que consiga compreender os grandes princípios do bom relacionamento dos Estados, das culturas, das etnias diferentes, a exigirem respeito e igualdade recíproca, a respeitar até uma coisa simples, que são as boas maneiras. Há mais de uma experiência de a isolada intervenção de um homem conseguir perturbar o aceitável funcionamento da ordem jurídica do globo. São dispensáveis mais exemplos, sobretudo vindos do Ocidente com demasiados sinais de um outono doloroso. Bastam os passados históricos, que o antigo terceiro mundo interpreta de maneira pouco benévola, para moderar as intervenções que devem ser enriquecidas pela experiência suficientemente próxima para não ser esquecida. Não parece que isso esteja presente no sintético America First, como se a Europa não tivesse parte fundamental no património comum da humanidade. Por alguma razão o bispo de Roma foi chamado cinco vezes a falar à Assembleia Geral da por vezes esquecida ONU.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub