A igualdade das Nações, que faz parte do ideal da paz que orientou a fundação da ONU, nunca conseguiu evitar que a igualdade pregada fosse violada pelo facto de a sociedade internacional continuar fortemente hierarquizada. O Conselho de Segurança ficou, na Carta da ONU, a lembrar que há uns mais iguais do que outros. Quando da crise do Suez, em 1956, além de ter coincidido com a Conferência, da mesma data, que a Sociedade Anti Esclavagista Britânica organizou em Genève, esta concluíra que os escravos chamados Travel Cheque continuavam a ser uma realidade de vários milhares de africanos trazidos para o Médio Oriente, vindos desde o Senegal. Também permitiu que a Inglaterra e a França, percebessem, pelo fiasco militar, que mesmo no Conselho de Segurança havia diferença de poder entre os proclamados mais iguais..O recurso à semântica levou por isso, como foi imediatamente notado pelos analistas, que a multiplicação de conceitos aproximasse a terminologia da realidade, e logo apareceram as diferenças entre superpotências, grandes potências, e potências regionais, mas sobretudo a tendência para igualar o poder pela constituição de Uniões de várias espécies, procurando equilibrar as diferenças das soberanias individuais pela articulação possível, não apenas pelos factos da economia, da geografia, e da história, mas também da memória. Pelo fim da guerra de 1939-1945, o movimento que colocou em evidência, nas vésperas do século XXI, o Brasil hoje em crise interna, a Coreia do Sul com tendência ocidental, a Indonésia que fez esquecer violências passadas, a Turquia que hoje inquieta a paz ocidental, e outros, tinha começado, para hoje exigir que a ONU estude a alteração do mundo global que se diferenciou do sonhado na sua fundação..A mais importante resposta inscrita nesta busca, nem sempre claramente assumida, da igual dignidade sustentada por igual poder, foi o que pareceu o triunfo final do sonho dos europeístas, que ao mesmo tempo esqueciam a política das represálias contra os responsáveis da II Guerra Mundial, e respondiam à identidade conhecida pelo conceito francês de "luz do mundo"..Acontece que entre os embaraços que os factos levantaram ao projeto dos grandes estadistas, sem sucessores, que abriram caminho à União Europeia, está a memória das hierarquias internas históricas, pelo que a Alemanha pareceu lembrar-se de que foi Império, a candidata Turquia mostra que o projeto democratizante de Atartuk era o de uma força militar tarefa, de objetivo não confessional e europeu, agora afastado com inesperada violência, a Rússia recorda que a terceira Roma nunca cairá, e assim por diante..É neste preocupante quadro que o Reino Unido decide o segundo Brexit, relembrando o que se ficou devendo a Henrique VIII, e com esta decisão, fracamente apoiada na curta dimensão da vitória dos votos, começa por obrigar a rever o inevitável abalo na política hierarquizante que não deixa de ter reflexos visíveis, e não sem importância, na vida e na linguagem interna da União. O facto de o governo britânico afirmar que deixa a União mas não a Europa, não impede que a herança de Margareth Thatcher afete eventualmente a própria unidade do Reino Unido, com o legado que deixou no seu A Arte de Governar, com devoção à grandeza anglo-saxónica, grandeza que incluiu, no seu governo de 1979-1990, o "ataque ao Estado Providência, o desmantelamento de serviços públicos, a ofensiva contra os sindicatos, a repressão das autonomias...." (Paquin), com efeito que prosperou na Escócia, com evidente tendência para a independência e adoção das orientações sociais-democratas, que os resultados das eleições de 2015 fortaleceram, e dificilmente deixarão de ter reflexos por exemplo na Irlanda do Norte: A questão traduz-se não apenas no enfraquecimento da União Europeia, quando a responsável pela sua segurança e defesa clama por um exército para responder às mudanças de ambiente que a desafia, quando o outono ocidental vê somar as hesitações americanas à debilitação da função da Grã-Bretanha no conjunto sonhado do Atlantismo..A hierarquia internacional inevitável parece aproximar-se da inevitável revisão. Mas o grave problema que tal revisão suscita, é o de poder ser reconhecida pelo diálogo, que o interesse dos povos recomenda e a prática dos decisores desmente com frequência excessiva, numa conjuntura em que o poder atómico está ao alcance de mãos pouco confiáveis. Quando a administração americana toma o rumo do Pacífico, encontra-se com uma sementeira de armas atómicas, com um único país, o Japão, que sendo aliado, todavia é o único que não a possui. Há um facto de dimensão mundial, nesta questão do conflito entre memória, interesses, e capacidade: o medo da rutura da paz.