A Europa e a mundialização

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A Europa foi muito tempo chamada a Luz do Mundo, mas não apenas, como sublinha Fukuyama, por estarem "integrados num único embrulho que tivesse de alguma forma chegado com a Reforma, o Iluminismo, a Revolução Industrial" mas pelo primado do direito, conjunto de leis transparentes e previsíveis criadas por uma instituição pré-moderna, a Igreja Medieval". Isto a propósito de um sistema de valores anteceder a importância social da técnica e da economia, estas hoje a lutar por encontrar respostas justas para ultrapassar a crise económica e financeira. São muitos os desafios, especialmente o crescimento da "maioria deserdada", como lhe chamou Charles Derber, e para a qual constantemente pede a atenção interventora o Papa Francisco. A chegada do globalismo foi uma das espécies de cisne negro que Popper avisou estar sempre na iminência de aparecer a inutilizar os projetos, os valores e os saberes. É evidente que não é de esperar de uma área da pobreza, a coincidir sensivelmente com a do antigo Império Romano, abrangendo a generalidade dos países do Mediterrâneo, que ignore o princípio da igual dignidade das Nações, que a ONU consagrou sem autenticidade, e na União Europeia pareceu vigorar como espelho regional, que se mantenha resignada com a hierarquia política consequente. Por isso não é de estranhar que se multipliquem as afirmações, como fez o jornalista Paul Magnete, de que a "Europa deve inventar uma nova mundialização", orientada pela autenticidade.

Claro que, no domínio da informação, é habitual que as interpretações se multipliquem, mas neste caso não se trata seguramente de voltar à proeminência perdida sobre "o resto do mundo", trata-se de reconhecer que um conjunto de leis claras, transparentes e justas devem acompanhar a mudança das circunstâncias, e neste caso, designadamente no que respeita à União, é certo que a realidade se afastou da herança dos estadistas criadores e autênticos nos seus projetos e inspirações. O que seguramente se pretende, com a defensiva de grande parte do chamado populismo, é acabar com as políticas furtivas, isto é, sem intervenção dos Parlamentos nacionais, e respetivo eleitorado, que entretanto são postos perante os efeitos que finalmente os atingem.

É certo que as grandes organizações internacionais, de novo com exemplo na ONU e na União, exigem um aparelho executivo, ou, mais claramente, burocrático, que não tem dimensão e técnica comparáveis com as experiências modestas do passado, se excluirmos os exércitos. Mas esta circunstância tem o efeito perverso de que a autoridade do conhecimento da realidade deixa frequentemente de estar no delegante governante para residir no delegado funcionário. De facto alastra a todos os níveis e inidentidade de quem de facto decide, e até de quem o designa, isto é, a relação de conhecimentos pelos povos da União e da ONU. É talvez esta inidentidade que explica em parte aquilo que anda englobado no chamado populismo, que é o nome que logo absorve para identificação geral agrupamentos da sociedade civil desencantada, movimentos políticos das sociedades descontentes com as forças políticas existentes, e até movimentos de abandono da unidade estadual e formação de pequenas pátrias, do que estão ameaçados mais de um governo da União. Sendo conhecidos os interventores individuais, não apenas comentadores, mas doutrinadores da mudança, para quem é considerado sem relevo sair da União, como decidiu o Reino Unido, é estranho que o criticável seja que alguns pequenos Estados projetem ir ao Conselho para que, sem a política furtiva frequente no passado, se pense na modificação das estruturas para remediar a descrença crescente, talvez a ser agravada pelas inovações políticas do até agora líder da NATO.

A eurocracia, de que tivemos experiência com a intervenção da troika, ou a inidentidade dos reais governantes da estrutura, não são os melhores representantes dos povos numa época de veloz mudança. No Conselho, o lugar é dos ministros, com igual responsabilidade, e ganhando ou perdendo, mas sempre com honra. A situação internacional, a corrida aos armamentos, o regresso da China ao seu passado ligado ao mar, a natureza errante da nova liderança americana, o turbilhão muçulmano, a ameaçada desagregação da solidariedade da União sem conceito estratégico, o inesperado discurso de Putin contra a dissolução dos valores da sociedade civil, tudo exige que no Conselho da União se levantem legitimamente vozes que, em pé de igualdade, tratem de chamar à reflexão sobre o interesse comum do europeísmo.

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