Vagas a mais, médicos a menos

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Há demasiadas vagas a abrir todos os anos para o curso de Medicina, queixa-se o bastonário, que recomenda um corte nas admissões para esta licenciatura. Diz que o país precisa de especialistas e que os profissionais capazes de ensinar os recém-formados já estão assoberbados. E os números não mentem: há jovens médicos há dois anos à espera para se especializarem e a formação que arranca em janeiro já deixa de fora 640 candidatos - um terço desistiu por não ter a vaga pretendida, mas ainda assim são números relevantes. E no entanto todos os anos lemos que há falta de médicos nos hospitais e centros de saúde - sobretudo em regiões como o interior -, que os doentes são sujeitos a horas de espera, que há demasiadas pessoas há mais de um ano a aguardar intervenções. É tudo verdade. Como são certas e justificadas as declarações do ministro do Ensino Superior ao DN, que defende que até gostava de ter mais candidatos a entrar em Medicina e põe uma questão lógica e pertinente: porque há de o Estado ser responsável por garantir o emprego nesta profissão, se não o faz em qualquer outra? Todos têm razão - os profissionais habilitados não chegam para tratar os doentes e em simultâneo focar as atenções na formação dos jovens médicos que todos os anos lhes chegam às mãos; o país precisa de médicos, sobretudo de especialistas, para melhorar o Serviço Nacional de Saúde; e não cabe ao Estado assegurar a empregabilidade do curso - ainda que seja sua responsabilidade garantir que a oferta pública está ajustada às oportunidades no mercado de trabalho.

Enquanto todos ralham e têm razão, o problema persiste e não há uma saída óbvia. Sobretudo se todos continuarem a defender o seu lado, impermeáveis a argumentos distintos. Seria útil que médicos e ministros - o do Ensino Superior mas também o da Saúde - se sentassem à mesa de cabeça aberta para fazer o diagnóstico do que está mal e traçar caminhos capazes de levar a uma solução que permitisse reforçar a saúde em quantidade e qualidade. Ganhava a profissão, ganhava o SNS e ganhavam os portugueses

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