Imaginemos que havia mesmo uma guerra a envolver a Coreia do Norte. Iniciada (hipótese 1) por um ataque ordenado por Kim Jong-un às bases americanas na Coreia do Sul e no Japão, a Guam ou mesmo aos Estados Unidos; ou iniciada (hipótese 2) por um ataque preventivo decidido por Donald Trump contra as instalações nucleares norte-coreanas..Seja na hipótese 1 como na hipótese 2, serão vários os perdedores e nenhum o vencedor. O grande derrotado, claro, chamar-se-á Kim Jong-un, pois assim que houver uma guerra o resultado será a queda do seu regime, uma espécie de república dinástica em que o estalinismo se mistura com o nacionalismo coreano. O próprio Kim dificilmente deixará de ser morto, no mínimo será capturado..Os Estados Unidos também perderão. Mais no caso da hipótese 1, pois as suas bases (ou mesmo o seu território) teriam sido atingidas por mísseis norte-coreanos. Mas a América sofreria também com a hipótese 2, pois veria o seu aliado Coreia do Sul semidestruído pela retaliação norte-coreana, talvez até o seu aliado Japão. E nada garante que uma resposta norte-coreana, mesmo em desespero, não chegasse aos Estados Unidos..A Coreia do Sul, essa, perde em qualquer situação de guerra, seja com a hipótese 1 seja com a 2. Em conflito com os Estados Unidos, a Coreia do Norte disparará de imediato a sua artilharia pesada contra o lado sul da DMZ, a zona desmilitarizada desde o fim da guerra de 1950-1953, atingindo Seul, cidade com dez milhões de habitantes. Além dos milhares de mortos, seguir-se-ia um período de caos na 11.ª economia mundial. Mesmo que, em consequência do conflito, a Coreia do Sul pudesse forçar a reunificação, os meios para a tornar bem-sucedida seriam poucos..Quanto à China, hoje o grande aliado da Coreia do Norte, não só terá de ficar na expectativa, evitando qualquer atrito com os Estados Unidos, como acabará por ter tropas americanas na sua fronteira, independentemente de ocorrer a hipótese 1 ou a 2. De prever ainda uma chegada maciça de refugiados norte-coreanos. A médio prazo, a China terá também de lidar com uma nova potência às suas portas: uma Coreia reunificada, com os recursos naturais do Norte ao serviço do espírito empresarial do Sul..O próprio Japão, mesmo na situação improvável de não sofrer um ataque antes da derrota final norte-coreana, e isto tanto na hipótese 1 como na 2, sofrerá um abalo económico significativo, ficará preso a uma nova rivalidade Estados Unidos-China e assistirá a uma reunificação coreana que, a médio prazo, poderá trazer um rival regional.