Anda a ser partilhado nas redes sociais um gráfico que mostra Donald Trump a ser eleito com menos votos do que Hillary Clinton e por só 20% dos americanos. O primeiro dado já foi mais do que esclarecido (é o sistema, tem que ver com o federalismo, tanto Trump como Clinton aceitaram as regras quando se candidataram a presidente); quanto ao segundo, merece reflexão, mais não seja pelo que nos revela sobre a sociedade americana e não só..Nos Estados Unidos não votam nem os menores de 18 anos nem os estrangeiros, sejam imigrantes legais ou ilegais. Não é muito diferente do que se passa na Europa, exceto que na Áustria se vota a partir dos 16 anos e que muitos países da União Europeia admitem o voto de alguns estrangeiros em eleições locais, como é o caso de Portugal, onde, além dos cidadãos comunitários, estão abrangidos brasileiros, cabo-verdianos e uma dúzia de outras nacionalidades. No caso das eleições europeias, esse direito limita-se aos estrangeiros comunitários..Já a abstenção entre os eleitores registados se revela significativa: 45% não votaram em 2016, o que é bastante mais do que cem milhões de americanos. Tendo em conta que Trump obteve 63 milhões, é tentador especular sobre o que teria sido o resultado se toda a gente registada fosse votar, mesmo que isso não aconteça sequer nos países onde o voto é obrigatório, como a Bélgica..Ora, estes mais de cem milhões de americanos delegaram a escolha nos que foram votar. Aceitaram, racionalmente ou não, que a decisão da maioria seria benéfica ou inevitável. É bem provável que muitos estejam agora descontentes com Trump, mas outros não estarão, de certeza..E é por isso que mais do que desvalorizar a vitória de Trump, que foi legítima, os seus críticos se devem concentrar em ir buscar votos a essa América que se absteve. É esse o desafio para o Partido Democrata, que ontem escolheu nova liderança (Tom Perez). Ser capaz de mostrar que o atual domínio republicano na Casa Branca, no Senado, na Câmara dos Representantes e entre os governadores não corresponde à vontade maioritária da sociedade americana.