Depois de seis meses sem salário, apesar de continuar a cumprir horários e trabalho, e sem conseguir sequer que a empresa onde estava lhe passasse a carta que lhe permitiria receber subsídio de desemprego, Ana decidiu recorrer à justiça. O caso era limpo, a condenação certa da empresa e a indemnização chegaria para pagar as dívidas entretanto acumuladas. Abrir e fechar, assegurava o advogado oficioso, que nestes casos de direito laboral a justiça é sempre amiga do trabalhador. De facto, a condenação chegou e foi decretado o pagamento. Porém, não havendo rendimentos ou bens conhecidos aos quais recorrer, o caso foi arquivado sem que Ana recebesse um cêntimo. Gastou, porém, dinheiro em todo o processo: em representação legal particular - depois de dois anos de oficioso e sem resultados -, em agentes de execução para procurar valores que pudessem ser penhorados, em taxas de justiça pagas em prestações..Não foi um azar dos diabos. Casos semelhantes acontecem todos os dias e só não há mais porque muitos nem sequer tentam avançar para tribunal, não têm forma de o fazer. O valor mínimo que é preciso desembolsar só para levar um processo à justiça excede os 300 euros - o Estado recebe cerca de 200 milhões por ano em custas judiciais, uma média que tem vindo a reduzir-se mas apenas em termos de receita, e não graças a um corte naquilo que os cidadãos pagam. O que afunila brutalmente o acesso à justiça, até porque esse valor não pode ser pago no final do processo, tem de ser desembolsado à cabeça ou, no máximo, em prestações iguais e consecutivas - qualquer interrupção pode ser considerada incumprimento e implicar o arquivamento do caso..É esta realidade que advogados e deputados querem alterar, e até a ministra Francisca Van Dunem concorda que é preciso reduzir taxas. Mas não se compromete com um prazo para mudar o que reconhece estar errado. Enquanto se aponta para o próximo Orçamento - ou o seguinte, ou o outro ainda -, a justiça vai continuar a ser inacessível para demasiados portugueses.