Os irmãos de Francisco

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Francisco, o primeiro Papa jesuíta, foi informado em outubro da escolha de Arturo Sosa como superior-geral antes de a eleição ser tornada pública. Não foi para a validar, mas sim por deferência. A Companhia de Jesus, desde 1540 devotada ao serviço do Papa, não esquece que o argentino Jorge Mario Bergoglio, hoje Francisco, não só é um dos seus, como no estilo e na mensagem corresponde àquilo que esta ordem defende: a Igreja aberta aos sinais do mundo, defensora da educação como forma de promover o homem e inimiga da pobreza.

Sosa é venezuelano, o primeiro não europeu a liderar a ordem criada pelo espanhol Inácio de Loyola. A sua eleição em 2016 não pode deixar de originar paralelos com a de Francisco em 2013, o primeiro Papa do Novo Mundo. Estes dois sul-americanos simbolizam a diversidade da Igreja Católica, que regride numa Europa em crise de fé mas mostra-se pujante noutros continentes.

Ora, os missionário jesuítas, no passado como hoje, são essenciais para a universalidade do catolicismo. Não por acaso Loyola enviou para Portugal dois companheiros, o português Simão Rodrigues e o espanhol Francisco de Xavier. O primeiro ficou em Lisboa a organizar a primeira província jesuíta (hoje são 83 abrangendo 120 países), o segundo, português de coração, partiu para evangelizar à Índia, a China e o Japão. O seu túmulo em Goa é objeto de uma devoção tremenda. Mas os jesuítas também se aventuraram na África e na América Latina.

O seu sucesso e a sua influência graças às universidades que iam criando (como a de Évora) valeram-lhes inimigos poderosos. Em Portugal, o marquês de Pombal primeiro prendeu-os e depois expulsou--os. O resto da Europa seguiu o exemplo. Só no século seguinte seria restaurada a Companhia de Jesus, que depressa recuperou o fulgor de antes, apostando em fazer dos seus membros homens de fé mas também de cultura e de ciência.

Numa sociedade cada vez mais laica, e perante uma Igreja muito presa no passado, os jesuítas tentam ir mais além. Diz-se que o padre Sosa, entrevistado nesta edição do DN, é mestre a entender os sinais do mundo. Percebe-se porque tanto o estima Francisco. Seja sobre a justiça social, seja sobre os refugiados, seja sobre a religião na sociedade moderna, ouvir um soa a estar a ouvir o outro. É impossível não admirar os herdeiros de Loyola.

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