O papel de Maria Luís

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Sempre que se fala no caso dos swaps do Santander, todos os indicadores se viram, acusatórios, para a pessoa que decidiu não pagar. Maria Luís Albuquerque é a responsável pela infração. Claro que não foi ela quem assinou os contratos - foram os presidentes das empresas de transportes, a quem foi dada carta branca para apostar em produtos de alto risco que nunca deviam sequer ter sido vendidos em Portugal. Mas na década passada, já percebemos, tudo valia. Nesses anos de 2002 a 2006, desde que o dinheiro entrasse e permitisse continuar a gerir à farta sem desviar fundos necessários para pagar outras tropelias do governo, ninguém se perguntava sequer se aquelas pessoas sabiam o que estavam a contratar ou entendiam o suficiente de instrumentos financeiros para ter o poder de negociá-los. Era assim que as coisas funcionavam, por isso perdoa-se aos que se deixaram ir na maré, esquece-se os responsáveis - de facto ou politicamente - pelo buraco de quase 2 mil milhões de euros capaz de voltar afundar o défice e engordar a já obesa dívida pública. Para isso não há remédio. Reclama-se antes do acumular de juros que resultou da decisão da ex-ministra das Finanças, dos rios de dinheiro público que correram para pagar advogados e evitar o inevitável. Pouco importa se o que Maria Luís fez foi defender o país, tentar resolver com menos violência um problema que deitaria por terra os enormes sacrifícios feitos pelos portugueses nos anos anteriores. Ainda menos o facto de essa mesma estratégia ter tido sucesso em muitos outros contratos semelhantes, permitindo ao Estado - aos portugueses - poupar perto de 570 milhões de euros. Ou sequer que o atual governo - PS, apoiado por BE e PCP - tenha seguido precisamente a mesma estratégia, recorrendo aos tribunais em vez de calar e pagar. E que ainda agora esteja a tentar minimizar os estragos. Maria Luís é culpada, sim, mas de se ter atrevido a tentar evitar mais um rombo nos cofres do Estado.

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