Há greves cumpridas e ameaças de novos protestos de juízes, de médicos, de enfermeiros, de professores, de auxiliares descontentes com as condições em que trabalham. Há erros no processo de vinculação de docentes. Os estivadores decidiram parar durante todas as horas ímpares durante um dia e uma noite e paralisaram os portos de Setúbal, Lisboa, Figueira da Foz, Leixões e Caniçal (Madeira), no início desta semana. Há filas de três horas nos aeroportos porque não há inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras em número suficiente para responder com eficácia ao aumento exponencial dos turistas que diariamente chegam ao país. Há os piores incêndios que Portugal já viu, com o mais negro dos números, 64 pessoas mortas, a revelar a dimensão do inferno vivido nos arredores de Pedrógão Grande. Há armas roubadas debaixo do nariz dos militares, de dentro das instalações do próprio exército - e, perante um país incrédulo, um chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas a dizer que a coisa nem é assim tão grave porque o valor do roubo não passa os 34 mil euros e afinal parte do equipamento nem sequer podia ser usado com eficácia por estar fora de prazo. Há "ajustamentos governativos" que nada têm que ver com a responsabilização política pelas dezenas de episódios que se sucederam nos últimos meses, mas que são consequência de casos ocorridos há um ano, então considerados assunto "devidamente encerrado" pelo mesmo primeiro-ministro que agora aceitou as demissões dos governantes, entretanto constituídos arguidos - a quarta mexida de António Costa na equipa que escolheu há menos de dois anos para governar o país. Há polícias investigados por atos de tortura e racismo..Tudo isto se passa agora, a meio de julho, em vésperas de Portugal entrar de férias. Quando chegar setembro e arrancar a campanha para as autárquicas, quando vier outubro e com ele a negociação do Orçamento do Estado e a discussão das prioridades para o próximo ano, de quanto deste retrato se lembrará o país?