O mundo precisa de mais testosterona?

Publicado a
Atualizado a

O general Loureiro dos Santos afirmava ontem no DN que o uso da mais poderosa bomba convencional do arsenal norte-americano - largada sobre um complexo de grutas e túneis alegadamente usados pelo Daesh na província de Nangarhar, no Afeganistão, perto da fronteira com o Paquistão - teria impacto político interno, demonstrando que Donald J. Trump é um "presidente másculo que, se necessário, usa os meios mais poderosos para defender os interesses do seu país".

Hoje damos-lhe conta do ambiente de tensão na península da Coreia, com a celebração, neste sábado, do Dia do Sol - aniversário do nascimento de Kim Il-sung. A data costuma ser marcada por demonstrações de força militar que, provavelmente, vão dar direito ao disparo de mísseis ou a um teste nuclear. Trump "o másculo" já disse que isso seria inaceitável. Será uma nova linha vermelha mal assumida, semelhante ao uso de armas químicas pelo regime de Assad na Síria? Não sabemos.

Aqui chegados, a um concurso de masculinidade à distância entre dois tipos com penteados absolutamente questionáveis, convém perguntarmos: "O que mudou?" Houve uma súbita inflexão de política em Pyongyang? Kim Jong-un está agora mais delirante e provocador do que estava há um ano? Não. Tudo isso é um fator mais ou menos imutável do xadrez geoestratégico global. Há décadas que é um traço marcante de todas as três gerações da liderança norte-coreana.

A mudança aconteceu do "nosso lado". Desde o dia 20 de janeiro que a Casa Branca é ocupada por um tipo impulsivo, com ouvido apurado para os falcões do Pentágono, com escassos conhecimentos de política externa e, temos agora a certeza, com dedo rápido no gatilho, mesmo que esteja a partilhar um fantástico bolo de chocolate com o presidente de outra potência mundial. Não são públicos os níveis de testosterona no sangue de Donald Trump, o que não é estranho, porque também não conhecemos as suas declarações de impostos desde há muitos anos. O que sabemos é que o mundo é um local cada vez mais perigoso, nalgumas zonas muito mal frequentado, e que o mínimo que se exige ao líder da maior democracia e da maior potência militar do mundo é ponderação e sangue-frio. O regresso a conflitos de baixa intensidade entre grandes blocos e por interpostos países, um estado de coisas que nasceu precisamente à beira do paralelo 38 na península da Coreia e marcou o tom para a Guerra Fria, é inaceitável. Sobretudo porque já não há grandes blocos bem definidos e o mundo é agora bem mais complexo. Sem outras armas, resta-nos esperar pelo improvável regresso de algum bom senso à Casa Branca.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt