O "momento" de Marcelo

A longa entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa ao DN revela uma mudança concreta no posicionamento do Presidente da República, como diz Marques Mendes, ou um vazio, como defende Vítor Costa no editorial do Público?

Ter sido eu a fazer a entrevista faz de mim um suspeito para responder a esta pergunta, mas tendo estado lá também me confere o privilégio de ter percebido os sinais que ele quis deixar. As perguntas que saem do alinhamento prévio também são um sinal e sei bem onde tive de fugir aos preconceitos com que se constrói uma notícia retirada das respostas a perguntas feitas com um sentido. Terminada a entrevista, a minha primeira conclusão foi a de que Marcelo não descolava no apoio ao governo. Como Vítor Costa, eu estava convencido de que este era "o momento" de o fazer. Assim que comecei a editar a entrevista comecei a encontrar "sinais subtis" de distanciamento, como salienta Marques Mendes.

Este foi de facto o momento de Marcelo, não para dizer o que eu ou o Vítor Costa, perante os sucessivos desastres governamentais, acharíamos normal que dissesse, mas para enviar os sinais que Marques Mendes sabe serem entendidos por quem tem de os entender. O Presidente não vai passar a ser uma força de bloqueio, mas avisa o governo de que não aceita ver o seu fato presidencial salpicado com a sujeira governativa. Há um antes e um depois de Pedrógão e de Tancos? Já todos se convenceram que sim. Para o governo porque perdeu o estado de graça, para Marcelo porque lhe permitiu afirmar-se distanciando-se da ação governativa. Em qualquer dos casos foi o governo que teve de andar a reboque da iniciativa presidencial. Na entrevista ao DN, deixa claro que onde "há responsabilidades tem de haver responsáveis". Isto compromete-o, mas não podemos esperar que ele use uma entrevista para anunciar uma rutura.

Marcelo avisou há muito tempo que haverá um novo ciclo político depois das autárquicas. Por coincidência, é o momento em que saberemos mais sobre as responsabilidades em Pedrógão e em Tancos. Mas o que o Presidente verdadeiramente quer é estabilidade. Sem ela, não há finanças sãs e crescimento económico.

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