Naturalmente, demito-a

A ministra da Administração Interna está muito pressionada pelo que aconteceu em Pedrógão Grande. A oposição ainda só começou a aquecer, mas não dará tréguas a Constança Urbano de Sousa. Há demasiadas falhas naquele incêndio, há sobretudo uma contabilidade que fragiliza politicamente qualquer governo do mundo: 64 mortes.

Como se esperava, só o tempo traz as respostas que toda a gente quer. E o tempo corre contra a ministra, porque traz respostas que levam a outras perguntas, que trazem novas respostas e que deixam pouco espaço de manobra quer à ministra quer a António Costa. Por agora, a ministra da Administração Interna repete que "enquanto tiver a confiança do primeiro-ministro" não se demite. Percebo-a, sinceramente percebo-a. Se não há, pelo menos por agora, responsabilidades determinadas, o tempo é de manter-se na frente de combate. Sair seria uma cobardia!

Acontece que em política sair também pode ser um ato de coragem. Quando por exemplo fica claro que há responsabilidades de um determinado ministério numa tragédia. Por isso, a ministra admite, na entrevista que hoje o DN e a TSF publicam, que "naturalmente" tirará "as devidas ilações" se a Comissão Independente de Peritos atribuir responsabilidades à tutela nalguma coisa do que aconteceu em Pedrógão. A alternativa é deixar António Costa a ter de dizer: "Naturalmente, demito-a" - e isso nunca acontecerá.

Há, ainda assim, um momento anterior a este em que um ministro pode ter de deixar o lugar. Por solidariedade para com o primeiro-ministro ou como sacrifício pela defesa da imagem do governo. É sabido que António Costa tudo fará para defender Constança Urbano de Sousa, de quem é amigo e que convidou para o governo. O que ainda não sabemos é a extensão dos danos que esta tragédia trará ao executivo de Costa. Até agora, a comunicação governamental e a forma digna como a oposição soube esperar ajudaram a conter os danos. Mas a luta política vai aquecer à medida que as respostas forem chegando. Ainda agora começou.

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