Há um momento em que o melhor é seguir em frente, deixar o acessório e dedicarmo-nos ao essencial. O caso dos dez mil milhões de transferências para offshores que passaram ao lado das estatísticas, convenhamos, não merece que o país político pare semanas a fio à roda de um único tema. E, por favor, pensem bem antes de avançar para mais uma comissão parlamentar de inquérito. Uma mão-cheia de audições deve ser suficiente para esclarecer todas as dúvidas..Sim, Marques Mendes tem razão, chame-se ao Parlamento os ministros que chefiaram Paulo Núncio. E, sim, o PSD esteve bem ao propor que a decisão de publicar estatísticas deve ficar ao nível de diretor-geral. Pensando bem, não faz sentido que haja interferência política neste tipo de medidas de transparência. Devem passar a ser hábitos administrativos. Automáticos..E, obviamente, é preciso ficarmos a conhecer, para lá de qualquer dúvida, dois dados simples. Primeiro, qual foi a motivação política de Paulo Núncio ao decidir esconder as estatísticas de transferências para paraísos fiscais (e, já agora, se foi ou não uma decisão partilhada com Paulo Portas - mais do que a Vítor Gaspar ou a Maria Luís Albuquerque, era com o líder do seu partido que o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais mais fielmente confidenciava e reportava matérias da sua tutela). Depois, é preciso sabermos que empresas constam desses dois lotes de transferências esquecidos na gaveta de Paulo Núncio. Porquê? Para termos a certeza de que nenhuma delas foi sua cliente nos escritórios onde exerceu antes de entrar para o governo..O país tem assuntos bem mais interessantes e importantes com que se entreter. Por exemplo, quais as conclusões do grupo de trabalho sobre dívida pública, que juntou elementos do governo, do Bloco de Esquerda e alguns economistas? Consta do relatório final a palavra "reestruturação"? O governo assina ou não assina as conclusões? A escolha de Francisco Louçã para o Conselho Consultivo do Banco de Portugal é um sinal de que vamos ouvir falar de reestruturação e de dívida pública, pelo governo, nos próximos tempos?.Outro exemplo, numa outra escala. É aceitável que, como conta hoje o DN, a PSP de Oeiras só consiga ter poiso condigno para os seus agentes que moram longe de Lisboa com ajuda de uma empresa privada?