Guterres na história

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António Guterres já garantiu um lugar na história da ONU. A bem ou por mal. E na verdade já não depende dele o que se vai passar a seguir.

Ontem o português voltou a ser o candidato mais votado para secretário-geral. E continua a não haver um outro que lhe faça sombra, pois desta vez foi o candidato sérvio a ficar em segundo, quando na última vez tinha sido o eslovaco. Depois da quinta vitória em cinco votações ditas informais, o lógico é que Guterres venha a ser confirmado como o sucessor do sul-coreano Ban Ki-moon, assumindo a liderança das Nações Unidas a partir de 2017. Como disse o embaixador António Monteiro, grande conhecedor da ONU, em entrevista ao DN, Guterres é o mais bem preparado dos candidatos e acontece ser português. Com 12 votos de encorajamento, um neutro e dois de desencorajamento, é evidente ser essa a opinião também dos membros do Conselho de Segurança, 15 contando os permanentes e os dez eleitos.

A 4 de outubro há nova votação, desta vez com cores a identificar os votos dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. Vencedores da Segunda Guerra Mundial, estes países criaram em 1945 uma ONU à sua medida e por isso possuem direito de veto sobre qualquer decisão. No passado, preferiram os acordos de bastidores para chegar a um nome para secretário-geral, mas neste ano aceitaram que o processo fosse transparente, o que mereceu aplauso de quem quer uma ONU reformulada, mais coerente com o mundo do século XXI. Se um deles (seja qual for) forçasse os outros a deixarem cair Guterres seria uma injustiça e um escândalo. Seria mesmo a prova de que os cinco vão insistir em manter o sistema onusino congelado, mesmo que (e falo só de candidatos óbvios a membros permanentes) o Japão seja o segundo contribuinte para as finanças da organização, mesmo que a Índia tenha mais de mil milhões de habitantes, mesmo que a Alemanha pese hoje mais na Europa do que o Reino Unido ou a França, mesmo que o Brasil seja o gigante latino-americano e lusófono.

Ou Guterres é secretário-geral e entra para a história de forma positiva. Ou Guterres não é secretário-geral e, contra vontade, fica associado a um momento trágico da ONU. Esperemos, por ele, pelas Nações Unidas e já agora também por Portugal, que esta história tenha um final justo.

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