Estão de volta os Panama papers

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A responsabilidade assumida por Paulo Núncio, por causa da não publicação das transferências para offshores teve como única consequência a perda dos cargos partidários. Para os partidos que estiveram no governo (PSD e CDS) o prejuízo pode ser bem maior, mesmo que o ex-secretário de Estado queira assumir sozinho essa responsabilidade.

Paulo Núncio já disse tudo e o seu contrário. Começou por dizer ao DN que a responsabilidade da não publicação era da Autoridade Tributária (AT). Desmentido pelo anterior presidente da AT, assumiu a responsabilidade pelo erro de perceção e acabou ontem por confessar que tinha sido uma decisão política dele próprio. Alegar que os anteriores ministros das Finanças de nada sabiam é atirar areia para os olhos. Todos sabíamos. É uma evidência, durante vários anos essa lista não foi publicada. Pode ter sido Núncio a tomar a decisão política, mas essa decisão foi aceite, mesmo que apenas implicitamente, pelos seus superiores.

Mas esta é uma mera questão político-partidária. Vale pouco. Já dá para perceber que a história é bastante mais sórdida em tudo o que há para esclarecer sobre o oculto.

Número redondinho, daqueles que não se pode dizer "cerca de". São 14 484 transferências que não foram fiscalizadas pela AT. O misterioso bug informático, disse-nos ontem Rocha Andrade, fez que "quase tudo o que foi para o Panamá tenha ficado oculto". O atual secretário de Estado dos Assuntos Fiscais também nos disse que "as transferências ocultas tinham em média um valor maior do que as que ficaram registadas".

O que eu gostava era que o atual governo fosse célere a esclarecer este caso das offshores. Com a informação que ontem libertou, esclarece muito pouco sobre o que se terá passado, mas permite muitas teorias da conspiração. Qualquer escritor de ficção medíocre faz um livro em três dias à volta destas três coisas: 14 484 transferências; 10 mil milhões; Panamá. Precisamos com urgência de total transparência para que o debate político não fique inquinado por "achismos".

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