As sete vidas de Merkel são quatro? 

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Mais cansaço da Grande Coligação que da chanceler, mas os resultados das eleições alemãs colocam sérios desafios a Angela Merkel, quase não a deixando festejar uma histórica quarta vitória consecutiva, até pela entrada de rompante da direita populista no Bundestag.

A CDU/CSU de Merkel perdeu votos mas mantém-se com grande vantagem o maior partido alemão e aquele que terá de tomar iniciativa de formar governo. Porém, renovar a Grande Coligação com o SPD é improvável mesmo que em termos aritméticos chegasse para maioria absoluta, pois o desastroso resultado dos sociais-democratas liderados por Martin Schulz aconselham uma cura de oposição. Juntando aritmética e realismo político sobra aos democratas-cristãos negociar uma aliança inédita que junte os seus tradicionais aliados FDP e Verdes. Se associar os democratas-cristãos aos liberais parece fácil (foi assim o segundo governo de Merkel), trazer os ecologistas para a solução de governo exige que eles e liberais esqueçam velhos atritos em nome da estabilidade política, valor muito querido aos alemães. Nascido como partido de protesto, os Verdes só estiveram uma vez no poder e coligados com o SPD.

De protesto a sério é hoje a Alternativa para a Alemanha, AfD, que entra pela primeira vez no Parlamento de Berlim e logo como terceira força, à frente de liberais, Verdes e Die Linke (partido mais à esquerda). Nascida como antieuro, a AfD tornou-se populista de direita, ganhando votos com o tema da insegurança e da chegada maciça de refugiados. Apesar dos 13% de votos, está excluída do jogo de alianças, um pouco como tem acontecido no outro extremo com o Die Linke, herdeiro dos comunistas da extinta Alemanha Oriental.

Com o mais colorido parlamento do pós-guerra em pano de fundo, Merkel tem condições para se manter chanceler, até por falta de alternativa, mas se muitos achavam que era a mulher das sete vidas, deve ficar-se pelas quatro, a não ser que continue a surpreender. Como o SPD vai para a oposição preparar o futuro, a CDU/CSU estará no governo a planear o pós-Merkel, queira ela ou não. Surpreenderá se um dia procurar o quinto mandato (como Helmut Kohl, perdendo), mas tudo depende se os democratas-cristãos serão capazes de encontrar líder com aura de vencedor. Merkel, essa, talvez deixe como último legado de chanceler ter mostrado que a AfD não é solução para nada, esvaziando-a.

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