A falência do Estado

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A falência do Estado não ocorre apenas quando se torna impossível pagar a dívida contraída e as despesas de tesouraria. Essa falência já existe quando, repetidamente, o Estado junta as migalhas dos contribuintes para servir banquetes ao sistema financeiro. A ameaça do efeito sistémico provocado pela falência de um banco deixa o Estado refém, incapaz de tomar decisões com racionalidade política. A cada decisão, a cada banco que temos de socorrer, optamos sempre pelo menos mau. Desistimos de querer tomar boas decisões, porque assumimos que os outros podem decidir por nós. Treze mil milhões de euros depois, não nos consola ouvir o Presidente da República dizer que "podemos ficar descansados". Estamos cansados destas garantias, porque o Estado falhou. Falhou na fiscalização, na prevenção e na resolução dos problemas.

Com tanto falhanço, é evidente que os quase quatro mil milhões de euros colocados no Fundo de Resolução para dar vida ao Novo Banco, mais os quase quatro mil milhões que agora servem de garantia ao Lone Star podem nunca voltar aos cofres do Estado. Garantido é que os 25% da Caixa Geral de Depósitos podem vir a ser o equivalente a dois mil milhões que teremos de pagar.

Correndo atrás do prejuízo, perdendo a noção da riqueza desperdiçada com tantos milhões na equação, é natural que o Estado se esqueça de coisas tão comezinhas como proteger as suas crianças. Não são milhões, é "apenas" uma dúzia, o número de raparigas que, em 2016, estavam internadas em centros educativos. Todas, sem exceção, foram ali parar idas do sistema de promoção e proteção de menores. Estavam sinalizadas e "o Estado falhou na proteção destas jovens", diz-nos Maria do Carmo Peralta, presidente da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos. Três destas raparigas, agora de maioridade, tiveram penas tutelares quando eram menores. Na segunda-feira foram detidas por suspeita de assaltarem taxistas com uma faca. O Estado estava muito ocupado a salvar bancos, já nem se lembrava delas.

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