Dezenas de milhares de sírios esperam junto à fronteira com a Turquia autorização para fugir à guerra e procurar uma vida. Não é, sequer, uma vida melhor. É apenas uma vida e as imagens não são muito diferentes daquelas que nos habituámos a ver nos últimos meses, de homens, mulheres e crianças arriscando a vida em botes de borracha ou percorrendo quilómetros pelos campos dos Balcãs. Serão mais de trinta mil os que esperam agora à porta da Turquia e o número deverá aumentar nos próximos dias. Fogem da maior cidade síria com o que conseguem trazer às costas e a situação destes refugiados já é desesperada, dizem os Médicos sem Fronteiras. Com quase três milhões de sírios no país, a Turquia começou a montar campos de refugiados do outro lado da fronteira, em território sírio. Aleppo é agora uma frente de intensa batalha entre o exército do presidente Assad - apoiado pela aviação russa, conselheiros iranianos e milícias libanesas do Hezbollah -, as forças da oposição síria e uma série de grupos rebeldes radicais como a frente Al-Nusra, com ligações à Al-Qaeda, e o Isis. Há ainda milícias curdas que controlam uma parte da cidade. Na semana passada, com o apoio de bombardeiros russos, as forças de Assad conseguiram cortar a última linha de abastecimento às forças da oposição. Aleppo, que já teve mais de dois milhões de habitantes - quatro vezes a população de Lisboa -, está cercada e o desfecho parece agora mais favorável a Assad. Na Síria, na verdade, jogam-se várias batalhas. A geoestratégica entre a Rússia e o Ocidente, a diplomática entre a Turquia e uma União Europeia pressionada pela crise dos refugiados, a guerra contra o terrorismo. E há ainda a considerar os danos colaterais: o pânico e a xenofobia que ameaçam esta Europa indecisa e sem soluções. O cenário só tende a piorar. O inverno aproxima-se do fim e outros milhares ganharão coragem para se lançar à procura de uma vida. Vem aí a primavera.