A repetição dos atentados terroristas desvaloriza as palavras que descrevem o horror e que exprimem o atual sentimento de impotência e vulnerabilidade. A Europa está em guerra. Não está. Tem de estar. O inimigo já foi identificado. Sabemos quem ele é, o que faz, como odeia, quem mobiliza, como espalha o terror, como mata. E no entanto também sabemos que para o cercar internamente, dentro das fronteiras europeias - embora seja preciso ir mais longe, ir lá fora -, será preciso sacrificar parte da liberdade e da privacidade que nos define. Para nos defendermos, temos de atacar (condicionar) um dos pilares que nos singulariza como civilização e nos faz avançar mais depressa do que os outros. Temos de aceitar mais vigilância policial e um grau de intromissão que traz, por definição, a semente de outros abusos - traz com ele os excessos do Estado. Mas é inevitável, temos de aceitar esse outro risco, embora sem o perder de vista. O que está a acontecer em França será mais ou menos esquecido daqui a uns dias por quem não vive lá. Mesmo os franceses serão levados a retomar o quotidiano, a vida continua - é a força da inércia, só assim se compreende que, apesar do perigo iminente, inerente, tantos franceses ainda se juntem aos milhares em sítios públicos. Se há coisa que sabemos hoje, sabíamos ontem e até já o sabíamos antes do atentado em Nice, é que o ataque se repetirá nalgum sítio, a uma hora qualquer, matando outra vez indiscriminadamente, chocando apenas pela banalidade dos meios: um camião transformado em arma, o volante em gatilho. Talvez até seja provável que os europeus tenham de aceitar viver sob esta ameaça constante, como outros povos sobrevivem a outros perigos. Mas isso não significa que a Europa se possa dar ao luxo de ser outra vez complacente nos meios de resposta ou confusa na atribuição de responsabilidades. O radicalismo islâmico tem de ser combatido implacavelmente. E não apenas com palavras. As palavras estão gastas - para este efeito, elas estão desvalorizadas, estão em perigo de vida.