Para que servem as perguntas?

Há momentos em que é preciso saber esperar para ter as respostas para as perguntas que fazemos

Quem pergunta quer saber, mas a um jornalista não basta lançar perguntas para o ar. Convém, aliás, que pergunte a si próprio se fazem sentido as perguntas que tem para fazer às fontes, de modo a obter as respostas de que o leitor precisa. O trabalho que fazemos enquanto jornalistas mede-se melhor pelas respostas que conseguimos obter do que pela quantidade de perguntas que somos capazes de fazer. Há momentos em que importa até noticiar as perguntas que fazemos, porque a ausência de resposta das entidades competentes é por si só reveladora. Mas há também perguntas que, fazendo sentido, não podem ter resposta no momento em que as fazemos simplesmente porque essas respostas precisam de tempo para serem encontradas.
Quando vimos a tragédia de Pedrógão Grande, todos nos perguntamos como foi possível. Era suposto não ser. Por isso, a pergunta fez eco de norte a sul do país. Vamos ter de esperar para que tudo possa ser inquirido. Repetir a pergunta todos os dias não vai trazer a resposta mais rapidamente porque esta pergunta não tem uma resposta única. Condições climáticas adversas, meios de combate insuficientes, desorganização da Proteção Civil, desobediência das pessoas, tanta coisa pode ter contribuído para tantas mortes. Sim, há momentos em que é preciso esperar para ter respostas para as perguntas que fazemos.
O primeiro-ministro também fez perguntas. Ele tem um acesso às fontes que os jornalistas não têm. O IPMA já não responde aos jornalistas porque terá de dar a informação ao chefe do governo em primeira mão. O SIRESP também e a ANPC idem aspas. Pode parecer estranho, mas esta é a melhor forma de dar informação correta às pessoas, porque esta é a única forma de a sistematizar. Por exemplo, o primeiro-ministro quer saber porque não foi fechada a estrada nacional 236, pergunta que foi colocada também pelos jornalistas. Essa pergunta tem, no entanto, de ser antecedida por uma outra: era possível cortar a estrada? Uma visita ao Google Maps mostra que só a partir de Pobrais, pequeno lugar que perdeu habitantes na famigerada estrada, há cinco caminhos a levar à N236. Entre Castanheira de Pera e o IC8 há largas dezenas de estradas que vão dar à N236. A pergunta faz todo o sentido, mas a resposta, como se percebe, não é óbvia.
Mas as perguntas na boca de um jornalista não servem, ou não deviam servir, para uma informação espetáculo que em nada dignifica a profissão. O que há assim de tão útil para perguntar a um homem que se salvou mas viu morrer a mulher e duas filhas? O senhor terá respondido de livre vontade, mas era também de livre vontade que os jornalistas se deveriam abster de fazer perguntas a uma pessoa nestas circunstâncias.

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