O papel principal

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Os exames, o número de alunos por turma, os horários, a carga letiva e não letiva, os manuais, as horas de trabalho dos professores e as horas de estudo dos alunos. Discute-se tudo em educação exceto a própria educação. O que requer uma reflexão profunda e urgente - a forma desajustada da realidade como tentamos ensinar os miúdos, recorrendo a métodos com mais de 50 anos num mundo que se alterou radicalmente - é o único tema que parece não merecer atenção entre quem define o que é preciso meter na cabeça das crianças.

Numa reportagem, num dia destes, mostrava-se um caso curioso. Um tablet era entregue a uma criança pequena. Em segundos, ela era capaz de o ligar, de passar por diferentes ecrãs, de procurar a informação que a atraía - bonecos, claro -, de aumentar e diminuir a imagem... Minutos depois, o tablet foi substituído por uma revista que, nas mãos frustradas da criança, foi virada e revirada, tocada e esfregada com as pontas dos dedos sem que nada acontecesse, até ser posta de parte sem a menor hipótese de voltar a despertar interesse. É isto que acontece aos nossos miúdos na escola. Damos-lhes livros, impingimos-lhes informação que devem decorar e debitar, obrigamo-los a repetir os processos que connosco deram resultado. Esquecemos é que estamos a tentar comunicar com crianças que nasceram e cresceram na era digital, com acesso instantâneo e quase absoluto a todo o tipo de informação. E que melhor faríamos por elas despertando-lhes a curiosidade para procurarem elementos, dando-lhes as ferramentas que lhes permitissem procurar, filtrar e atingir o conhecimento. Os livros, a matéria, os exames, continuam a ter um papel nisto. Mas têm de entrar de outra forma nos hábitos dos alunos, têm de ser eles a ter a iniciativa de procurar o conhecimento, pelos seus métodos. Cabe aos professores guiá-los neste caminho. Nunca o seu papel foi tão importante como hoje.

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