O aviso

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Nem a cotação do Facebook nem a da Google ou a da Amazon e a da Netflix, os queridos das bolsas mundiais, resistiram ao forte bater de asas da borboleta chinesa. Ontem, o mercado chinês voltou a colapsar (-8,22%) e o tufão atingiu todos os mercados. Levou quase mil milhões de euros à praceta portuguesa. Passou por Madrid, Londres e Frankfurt. Nova Iorque e São Paulo também se pintaram de vermelho, embora a Europa se tenha destacado por ter registado o pior desempenho dos últimos 20 anos. Mas o pior não é isso. É normal haver dias maus. O pior é a certeza de que os mercados ainda não descontaram totalmente a ameaça chinesa, isto é, a possibilidade de a travagem ser mais agressiva. Não é que o governo chinês esteja de braços cruzados. No ano passado, quando a bolsa de Xangai já acumulava uma perda de 45%, seguiu-se uma intervenção concertada para travar a avalancha: bolsas suspensas, introdução de mecanismos para evitar o contágio entre as companhias cotadas e o inusitado reforço dos investimentos do Estado em ações. Ao todo, o setor público já controla 6% do mercado de capitais, havendo quem considere que a fatia é na realidade maior. Este é outro calcanhar de Aquiles: os números oficiais da China, do PIB à produção industrial, são massajados, alimentando a desconfiança dos investidores. O outro problema, mais profundo, é o modelo económico assente no investimento para favorecer as exportações. Para exportar é preciso compradores, mas com a Europa fraca e os outros países emergentes (os vendedores de matérias-primas) a ressacar do recuo chinês, sobram os esquimós para tentar vender mais alguma coisa. A mudança da China para um modelo de crescimento assente no consumo interno e nos serviços é inevitável, mas Pequim continua a bombar liquidez para as empresas e não para os consumidores. O resultado é o que se vê, embora não seja caso para entrar em pânico. Basta que as famílias, as empresas e o Estado compreendam o aviso que janeiro já nos trouxe: 2016 será um ano de cruel incerteza.

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