A surpresa

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Quando o estado norte-americano do Colorado aprovou a legalização da canábis para fins recreativos, não estava preparado para as notícias que iria receber. Denver previa arrecadar cerca de 40 milhões de dólares (36 milhões de euros) por ano com os impostos pagos pelas pouco mais de 30 lojas autorizadas a vender o produto - com regras semelhantes às das bebidas alcoólicas - e prometia aplicá-los a construir escolas. Um ano depois viria a primeira surpresa: a receita fiscal era praticamente o dobro da que Denver antecipara, levando o Colorado não só a cumprir o investimento previsto como a ponderar devolver uma parte dos impostos pagos pelos seus cidadãos. Uns meses mais tarde, num relatório publicado em outubro do ano passado, segundo facto surpreendente: um relatório oficial da organização americana de combate ao narcotráfico revelava que o contrabando na fronteira caíra 23%. Tendo-lhes sido retirada a fatia mais significativa do seu rendimento, a canábis, e tabelados os preços, o negócio dos cartéis mexicanos estava a sofrer. Claro que ainda vendiam nas ruas as drogas pesadas, ilegais, mas nos preços dessas não tinham tanta margem de lucro. Não há para Portugal estimativas de quanto podia render uma medida semelhante. Como não existem perspetivas do que poderia mudar para melhor e para pior caso os portugueses aprovassem a legalização da venda - este é daqueles assuntos que deviam mesmo ser referendados. Continuaria a haver tráfico de outras substâncias, claro - até mesmo destas, nem que fosse alimentado por quem não pudesse comprá-las nas lojas; seria inevitável o aumento de um certo tipo de turismo que talvez não seja o que mais queremos atrair... Mas se fosse possível controlar as circunstâncias, educar, fiscalizar devidamente e ainda obter receita fiscal, seria assim tão terrível? Seria um passo assim tão grande em relação à descriminalização da canábis?

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