A capitulação

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A agência Fitch treme com o Orçamento português. A Moody's ameaça baixar a nota da República. É o fim do mundo quando ainda está tudo por decidir, mas os mercados financeiros são assim, são epidérmicos, veem um pedacinho de pele à mostra e acham logo que vai dar em bacanal. São como os iranianos que estão de visita a Roma. Estátuas da antiguidade clássica com mulheres e homens nus? Nem pensar nisso. Tapem-nas de cima a baixo para que Hassan Rouhani, o presidente iraniano, não as veja enquanto percorre o museu Capitolini. Já em outubro, Matteo Renzi, o moderníssimo e bronzeadíssimo chefe do governo italiano - nascido perto de Florença, a cidade do Renascimento - mandara tapar algumas obras de Jeff Koons para não ofender a comitiva do príncipe do Abu Dhabi. Safou-se, na altura, o David de Michelangelo, talvez porque a derrota da Europa seria então demasiado vexante e insuportável. Há vergonhas impossíveis de cobrir. Mas desta vez nem o vinho evitou a censura prévia dos iranianos. Talvez um Brunello di Montalcino, reserva de 1997, obra de arte das uvas da Toscana cultivadas desde o século XIV, pudesse ter escapado à grotesca intransigência cultural, mas não. Os tortellini - ou seriam gnochi? Ou seriam pappardelle? - tiveram de ser deglutidos com água, um pecado alimentar inconcebível na pátria da boa mesa. Mas tudo vai dar à cama para o radicalismo religioso. O Irão visita o estrangeiro de bolsos cheios - só em Itália vão ficar 17 mil milhões de euros -, e Roma ajoelha-se, tapa a história comum enquanto saliva por uns cobres. É uma derrota homérica, clássica no caminho que leva à decadência dos povos. Não é apenas a destruição de Palmira, na Síria, que assusta. A Europa está a ser atacada - e agacha-se. Falta pouco para que a liberdade de Schengen capitule. Mas o inimigo já está cá dentro. Entre os europeus que se cobrem de vergonha e sucumbem, em casa, à loucura dos convidados.

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