"Podem acusar-nos de termos ambições mas não de mentir", disse o primeiro-ministro grego no domingo aos deputados, quando estes se preparavam para votar novo pacote de austeridade, sob pressão dos credores que financiam o resgate e a ameaça de novo incumprimento. Alexis Tsipras, no poder desde 2015, falou de sinceridade, honestidade, humanidade e solidariedade, antes de ver as reformas aprovadas, apenas com os votos favoráveis dos partidos da coligação (Syriza e nacionalistas dos Gregos Independentes). Mas os gregos não parecem impressionados com este discurso: muitos saíram às ruas para protestar, lançar coktails Molotov contra a polícia, que em troca lançou granadas de gás lacrimogéneo.."Estou desiludido porque Tsipras mentiu descaradamente ao povo grego e, na realidade, vendeu-o. Nada foi cumprido do acordo anunciado em setembro de 2014", diz ao DN Leonidas Chrysanthopoulos, embaixador grego reformado. Além disso, refere o septuagenário, o chefe do governo "ignorou o resultado do referendo de julho, no qual 60% dos votantes rejeitaram mais medidas [de austeridade]". Declarando-se fortemente afetado pelas sucessivas medidas aprovadas, o diplomata afirma: "Desde 2010 a minha pensão foi cortada em 53%, podendo chegar aos 56% ou 57%. Eu chamo a isto roubo. Eu e mais três milhões de gregos deixámos de pagar impostos por não podermos, por isso duvido que o Estado consiga mais receita com mais impostos. Todos sabem disso. Tanto os credores como o regime grego.".Um Estado falhado?.O texto aprovado pelo Parlamento grego no domingo prevê uma reforma das pensões, dos impostos diretos e dos indiretos, para poupar 5,4 mil milhões de euros por ano e conseguir em 2018 um superavit primário de 3,5% do PIB, como prevê o programa do terceiro resgate (no valor de 86 mil milhões de euros). "Haverá um alívio da dívida porque a dívida é insustentável", garante Chrysanthopoulos - a dívida pública ronda 180% do PIB. O Eurogrupo, que se reuniu no dia 9, remeteu para o próximo dia 24 qualquer decisão sobre o alívio da dívida. O ministro das Finanças grego, Euclid Tsakalotos, avisou que a Grécia pode ser um Estado falhado. "É trágico ver os gregos à procura de comida no lixo, a taxa de desemprego nos 25%, empresas a fecharem todos os dias", sublinha o embaixador reformado..[artigo:5164420].Que a dívida grega é insustentável não tem também dúvidas o jornalista Tassos Morfis, que ao DN nota como o futuro é incerto. "As pensões são cortadas, os nossos amigos não têm emprego, temos de pagar mais impostos, é difícil começar um projeto como fizemos com o Athens Live", diz, referindo-se a um jornal online financiado por crowdfunding. "Cada vez mais pessoas emigram", conta o jovem, que fez Erasmus em Lisboa, sublinhando não acreditar que o seu país entre de novo em default. "Depois da aventura do verão passado, todos estão mais sensíveis", afirma, referindo-se ao incumprimento dos reembolsos devidos ao FMI. E quanto a Alexis Tsipras? "Nunca esperei nada de impressionante dele. A Grécia é um país devastado por cinco anos de austeridade. Tsipras não é um mágico nem é Deus.".No entender de Anastasis Lozos, jovem empresário grego, Tsipras até é um político carismático, mas duvida que volte a vencer eleições. "Acho que as pessoas começaram a acreditar que as coisas iam ser diferentes quando ele começou com a retórica antiausteridade, mas agora fez o contrário", refere, considerando bizarra a coligação atualmente no governo (entre o Syriza e os Gregos Independentes). "É como se fosse uma coligação entre Jeremy Corbyn e Donald Trump", ironiza o empresário que atualmente está de visita a Espanha. "Aqui ninguém me perguntou como vão as coisas. Acho que toda a gente já está farta da Grécia", desabafa, enumerando três problemas que considera urgentes resolver: "A fuga de cérebros, porque os jovens estão a emigrar, o desemprego, que anda nos 25%, a economia que está estagnada, não existe investimento.".Syriza desce nas sondagens.A comprovar a desilusão dos gregos está uma sondagem de abril, publicada pelo jornal To Vima, na qual o Nova Democracia, agora liderado por Kyriakos Mitsotakis, surge em primeiro lugar com 21,4% das intenções de voto. O Syriza de Tsipras recolhe 18,4%, enquanto o seu parceiro de coligação fica nos 2,5%. "Os Gregos Independentes não devem conseguir entrar no próximo Parlamento", antevê Anastasis Lozos, dizendo, porém, que ninguém acha boa ideia eleições antecipadas. "Não há grande interesse nisso.".[artigo:4362785].Mais positiva, embora realista, está Elina Paraskevopoulou, advogada , de 37 anos, que representa tanto clientes gregos como estrangeiros em assuntos relacionados com transações financeiras. "Ainda há uma injeção de pensamento positivo e de otimismo, pois há uma comunidade de startup que está a florescer na Grécia. Acredito que vamos conseguir ultrapassar todas as dificuldades com o tempo. Apesar disso a atual situação não é fácil.".Afirmando que os mais afetados pela austeridade são os trabalhadores por conta própria e freelancers, Elina diz, sobre Tsipras, que "infelizmente, para muitas pessoas, todas as esperanças foram seguidas por controlos de capitais, perda de dinheiro e de fé no atual governo"..Muito desiludido com Tsipras, Christos Sideris sublinha que "não há um único grego que não tenha sido afetado pela austeridade. Os impostos, diretos e indiretos, estão a aumentar de tal forma, que 60% dos nossos salários serão em breve para pagar impostos. E esses não são para a saúde ou a educação, mas para pagar empréstimos". Assessor de imprensa da Metropolitan Community Clinic de Helliniko, uma clínica onde voluntários dão consultas, medicamentos, cuidados médicos grátis a quem não tem dinheiro para se tratar, Sideris afirma que Tsipras "não cumpriu nenhuma das suas promessas e foi contra o povo, assinando, mesmo após o referendo, um memorando pior do que os anteriores. Tornou-se um instrumento da troika"..A Grécia já pediu desde 2010 três resgates financeiros no valor de 300 mil milhões de euros. "O nosso país tornou-se uma colónia da dívida da União Europeia, que ignora a vontade do povo e o senso comum", sublinha ainda Sideris. Sobre um eventual incumprimento diz: "A Grécia já está em incumprimento... para com o seu povo."