Guterres: "A ONU deve estar preparada para mudar"

Cerimónia começou com um tributo a Ban Ki-moon e concluiu com o discurso do ex-primeiro-ministro português.

António Guterres começou o discurso dizendo-se honrado por ter sido escolhido como secretário-geral, agradecendo o trabalho de Ban Ki-moon. "É uma honra seguir os seus passos", afirmou, dirigindo-se diretamente ao sul-coreano.

O ex-primeiro-ministro português falou depois dos desafios que enfrenta atualmente o mundo, lembrando também que houve vários avanços nos últimos anos, ao nível da globalização e das tecnologias. Mas que isso também resulta em maior instabilidade, violência e conflito. "A globalização fez aumentar as desigualdades. Muita gente ficou para trás, incluindo nos países desenvolvidos", disse Guterres.

"A ONU deve estar preparada para mudar", afirmou Guterres, falando da "incapacidade" das Nações Unidas para prevenir crises. "Devemos duplicar os esforços para resolver os conflitos", indicou o português, discursando nessa altura em francês.

"A prevenção é o que os fundadores das Nações Unidas nos pediram para fazer. É a melhor forma de salvar vidas e de reduzir o sofrimento humano. Onde a prevenção falha, devemos fazer mais para resolver conflitos", considerou.

"Estou preparado para me envolver pessoalmente na resolução de conflitos onde isso trouxer um valor acrescentado, reconhecendo o papel de liderança dos Estados-membros", afirmou.

Falando nos capacetes-azuis, Guterres disse que por vezes são chamados a manter a paz que não existe. O secretário-geral designado pediu uma "reforma global da estratégia das Nações Unidas" ao nível da manutenção de paz.

"A ONU nasceu da guerra, temos que estar aqui para a paz", indicou Guterres. O nosso dever, afirmou, "é trabalharmos juntos para passarmos de ter medo uns dos outros, para confiar uns nos outros", indicou.

As três áreas prioritárias para Guterres são paz, desenvolvimento e organização interna. O ex-primeiro-ministro português foi aplaudido em diversas ocasiões, nomeadamente quando pediu mais eficácia e menos burocracia, dizendo que não pode demorar nove meses a destacar alguém para o terreno. "Não basta fazer melhor, temos que comunicar melhor o que fazemos, de forma a que todos compreendam", defendeu. E prometeu alcançar a paridade de género nas nomeações para os altos cargos da ONU durante o seu mandato.

Depois do inglês e francês, Guterres falou em espanhol para dizer que há um desafio: os jovens. "A ONU deve capacitar os jovens", defendeu, destacando a necessidade de inclui-los "na tomada de decisões que afetam o seu futuro".

"Farei o meu melhor para servir a nossa humanidade", concluiu Guterres.

Juramento de Guterres

O presidente da Assembleia Geral da ONU, Peter Thomson, lembrou o histórico processo para eleger o novo secretário-geral, António Guterres, no início da cerimónia de juramento. E disse que ele é "um homem que encarna o espírito das Nações Unidas" e que pode contar com o apoio de todos os membros. Segundo Thomson, Guterres é "um líder para este tempo quando temos que transformar o mundo para ser um melhor lugar para todos".

Depois, já com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro António Guterres junto ao púlpito, António Guterres prestou juramento: "Eu, António Guterres, declaro solenemente e prometo exercer em total lealdade, discrição e consciência as funções que me são confiadas enquanto servidor público das Nações Unidas, exercer estas funções e pautar a minha conduta apenas tendo em mente os interesses das Nações Unidas, e não procurar ou aceitar, no que respeita às minhas responsabilidades, instruções de qualquer Governo ou outra organização".

O mandato de Guterres, o nono secretário-geral das Nações Unidas, começa a 1 de janeiro de 2017.

Último discurso de Ban Ki-moon

Antes do juramento de Guterres, a Assembleia Geral prestou homenagem a Ban Ki-moon, que fez o seu último discurso. "Estou muito emocionado pelo vosso tributo", disse Ban Ki-moon, falando do privilégio que foi ser secretário-geral das Nações Unidas. "Para mim, o poder das Nações Unidas nunca foi abstrato ou académico", explicou. "É a história da minha vida. Esta apreciação profunda tornou-se ainda mais forte todos os dias do meu serviço nas Nações Unidas", acrescentou.

O sul-coreano disse que o mundo enfrentou vários desafios nos últimos 10 anos, desde crise económica à irrupção de novos conflitos, doenças, desastres naturais. "Este tumulto testou-nos", afirmou. Ban Ki-moon discursou primeiro em inglês e depois passou para o francês. "Os princípios da carta das Nações Unidas devem continuar a mover o nosso mundo", referiu.

Ban Ki-moon destacou o "caleidoscópio de rostos" com que se cruzou ao longo dos últimos dez anos. "Mesmo quando me preparo para sair, o meu coração fica aqui", afirmou, dizendo passar o testemunho a Guterres, "um homem de integridade e compaixão". E terminou desejando ao seu sucessor e a todos os estados-membros "paz, prosperidade e grande sucesso".

Ao terminar o discurso, Ban Ki-moon foi ovacionado pela Assembleia-Geral.

Tributo a Ban Ki-moon

Antes do discurso, o representante de Laos na ONU apresentou uma resolução de tributo a Ban Ki-moon, agradecendo o trabalho que este desempenhou ao longo de 10 anos, que foi aprovada por todos os membros da Assembleia Geral. Ban Ki-moon deixa o cargo no final do ano, sucedendo-lhe António Guterres.

A resolução "presta tributo a Ban Ki-moon pelo seu contributo excecional para o trabalho da organização e as suas realizações em melhorar a vida das pessoas e proteger o nosso mundo para futuras gerações e em promover e proteger os direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, no interesse de um mundo mais seguro".

"Ele guiou as Nações Unidas por um período de mudanças", indicou também o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Peter Thomson. Um dos temas destacados foi, por exemplo, o apoio de Ban Ki-moon à igualdade de género que tem sido "a pedra angular do seu mandato".

Os vários representantes regionais fizeram depois a sua homenagem a Ban Ki-moon. O representante de Burkina Faso, em nome do grupo africano, destacou o seu "serviço à humanidade" e o papel que teve durante a epidemia do ébola.

O representante da Costa Rica destacou a "sabedoria" e "determinação" de Ban Ki-moon ao longo da última década. E recordou as palavras do secretário-geral: "Não temos um plano B, porque não temos um planeta B." Lembrando que ele prometeu ser um "construtor de pontes", disse que ele cumpriu.

O embaixador da Suécia nas Nações Unidas, em representação da Europa Ocidental, disse que Ban Ki-moon tem sido "o rosto e a voz da ONU", tendo defendido o papel das mulheres e que os direitos humanos estão no centro de tudo. E falou num mundo "mais ligado do que nunca", lembrando que no ano em que tomou posse, foi também apresentado o iPhone.

O representante sueco indicou que Ban Ki-moon foi "um verdadeiro campeão do clima", destacando o seu trabalho para tornar o Acordo de Paris numa realidade.

Os membros da Assembleia Geral também agradeceram o "apoio constante" da mulher de Ban Ki-moon, Ban Soon-Taek. A embaixadora dos EUA nas Nações Unidas agradeceu o seu "sacrifício" e o da sua família.

Samantha Power começou a homenagem falando da infância de Ban Ki-moon e de como o secretário-geral ainda hoje não sabe a sua data de nascimento, já que os pais decidiram só o registar quando soubessem que ele ia sobreviver. E fala da zona rural da Coreia do Sul onde o secretário-geral da ONU nasceu em 1944, das suas origens humildes e do conflito que o rodeava.

A embaixadora falou da "crença duradoura" de Ban Ki-moon de "não deixar ninguém para trás", da sua "devoção" em relação às alterações climáticas e aos perigos que isso representa e da forma como sempre "defendeu a dignidade dos mais marginalizados".

"Em nome dos nossos filhos, e dos filhos dos nossos filhos, nunca poderemos agradecer o trabalho de Ban Ki-moon", disse Samantha Power, que acrescentou que Guterres "é o homem para este trabalho, em tempos desafiadores".

Convidados de Guterres

António Guterres veio acompanhado pela mulher, Catarina Vaz Pinto, pelos filhos Mariana e Pedro, e pela irmã Teresa, mas nenhum do familiares se mostrou disposto a quebrar a regra de silêncio que os tem caraterizado. O padre Vítor Melícias e o médico pessoal Leopoldo Matos, pelo contrário, não fugiram a manifestar a alegria e o orgulho de estarem com o amigo António Guterres neste dia feliz. Vieram de Lisboa de propósito e ainda antes da cerimónia já estavam emocionados, já guardaram algumas lágrimas que sabem que vão deixar sair no momento do juramento.

Marcelo está sentado no lugar da delegação portuguesa, ao lado de António Costa.

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